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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Yamandu Costa - Continente (2013)





Um trabalho completamente gaúcho, é isso que Yamandu Costa, Guto Wirtti e Arthur Bonilla trazem em Continente, lançamento da Biscoito Fino. Sempre com referências a tradição do sul do Brasil em suas performances, Yamandu repetiu o cuidado que teve em Lida ao compor músicas fortemente enraizadas no Rio Grande do Sul, porém escapando do tradicionalismo excludente que permeia a música fronteiriça.

A saga de O Tempo e O Vento mais uma vez foi a grande inspiração para a concepção geral do disco. Sem ela, toda uma faceta da história cultural do RS seria de difícil compreensão para outras partes do país, assim como Grandes Sertões Veredas e a obra de Guimarães Rosa são para o norte brasileiro. A música que dá título ao álbum e nomeia o primeiro volume da saga pode ser interpretada como uma homenagem ao espírito independente do gaúcho que vê na vastidão de seu estado um espaço continental onde guerras foram travadas com orgulho e coragem, uma marca inextinguível do povo que nela vive. Além de ser a mais completa do álbum, O Continente traz um ritmo de luta e sensibilidade abrangente, assim como Chamamer representa um dos gêneros mais tradicionais do sul e permite diversas variações.

A primeira música do álbum, Sarará, já bastante difundida no repertório do violonista principal, traz uma versão mais cálida e sentimental do que a costumeira tocada em shows ou a gravada com o acordeonista Borghetinho, onde o virtuosismo se faz bastante presente. Nela, Yamandu faz uso também do requinto, um violão um pouco menor que o convencional que reproduze um som mais agudo e foi bastante usado na música clássica.

Cabaret e Bounyfie trazem um lado mais lírico e com toques mais europeus que acentuam a participação do baixolão de Wirtti e o segundo violão de 7 cordas de Bonilla. Presentes em todas as músicas, os músicos também gaúchos trouxeram um frescor para o contraponto que Yamandu sempre soma nas participações de seus discos. Graças a sutileza que os três conseguiram imprimir na pequena suíte em dois movimentos Namoro de Guitarras e Peleia de Guitarras, o papel do violão na cultura gaúcha é realçada e elevada de nível tanto na virtuosidade quanto no acolhimento do sentimento que décadas de tradição são repassadas e reacolhidas.

Outros exemplos desta concepção estão firmes em Fronteiriço e Don Ata, ambas reafirmações da conexão latina que a música de fronteira traz com os argentinos, chilenos, paraguaios, uruguaios e os povos que dividem uma herança cultural muitas vezes sonegada pelo resto do Brasil.

O baixolão de Wirtti se sobressai com uma abordagem pouco explorada na música brasileira. Em Aperto, toda a extensão musical do instrumento se encaixa com perfeição em um clima de sofreguidão e introspecção que o álbum cultiva. Sua participação, também presente em Lida, é mais sólida e sugere novas aberturas para os tons graves que baixolão permite, assim como o violão de Bonilla presenteia uma segunda voz a ser ouvida e cultivada com calma e paciência pelo futuro que pode apresentar.

Para finalizar, assim como Lida com Ventos dos Mortos, Sufoco mistura uma saudade do contato mais íntimo com o habitat campeiro que as reuniões de amigos envolta da fogueira ou um passeio pelo interior consegue despertar no brasileiro que saí de sua terra, mas não esquece a raiz que deixou por lá. Piegas a parte, é uma celebração tão honesta quanto o samba e o axé, que esquecem de olhar para outros pólos do Brasil.

A seguir ouça a versão de Wirtti e Yamandu para Sufoco.

http://www.youtube.com/watch?v=g7DEofA3ctM&list=PL1YdO_i1K5KPuBsJqiRQgYkYNyK6q-6Sc

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Yamandu Costa - Ida E Volta


Ida e Volta - Yamandu Costa

Se o assunto é jazz, qualquer pessoa consegue dizer quem é Miles Davis ou John Coltrane, pelo menos. Se perguntados, quase todos já ouviram falar de Billie Holiday ou Louis Armstrong. Porém, essa distinção 'clássica' do que é o verdadeiro jazz caiu por terra há muito tempo. Músicos agregaram vertentes e inspirações de todos os lugares possíveis (Dizzy Gillespie e a música cubana, por exemplo) e o ritmo está muito rico, mas também quase impossível de identificá-lo plenamente. O próprio Tim Maia, quando não conseguia classificar algo, tinha a famosa frase "Isso aqui tá o maior jazz!".

Foi com esse conceito mundial-musical que consegui compreender o álbum Ida E Volta. Em 2007, o violonista Yamandu Costa saiu da categoria de música brasileira e entrou no mercado global ao gravar com o violinista Nicolas Krassik e o contrabaixista Guto Wirtti um álbum em Bruxelas. Pra início de conversa, o formato do trio já sugere maior versatilidade: violão, violino e contrabaixo possuem timbres bastante diferentes, o que já abre muitas portas. O fato de Krassik ser um cidadão francês radicado no Rio de Janeiro e Yamandu ter tocado nos cinco continentes traz uma maior experiência ao grupo, também composto pelo gaúcho Wirtti, acostumado aos palcos.

Tudo começa com Temporal, composição de Yamandu e Krassik. Longe de ser a mais tempestiva do álbum, ela apresenta o nível de simplicidade e liquidez dos arranjos que estão por vir, o que não a torna somente uma alegoria. Não, Temporal joga com os possíveis contrapontos entre violão e violino, algo que sugere um som audacioso, uma combinação bastante pessoal entre o modo de tocar de cada artista. Logo depois, O Sapo e O Grilo, parceria entre Wirtti e as 7 cordas, faz o mesmo que sua antecessora, porém num tom mais humorístico: penso que o sapo é o gigante contrabaixo, o grilo o modesto violão.

Na faixa 3, que dá nome ao disco, a união dos três instrumentos fica perfeita. Todos atacam com uma força e energia que dá a chance inicial aos três trabalharem juntos adiante. Ida E Volta é uma metáfora sobre as transformações que a musicalidade da América Latina, com seus chamamés e zambas, passa ao entrar em contato com as influências européias tanto da valsa quanto do flamenco. A perspectiva que se forma é sempre mista, onde cada instrumento expressa sua origem, mas ousa no toque de outra cultura. Por exemplo, o violão, que simbolizaria a música latino-americana, mais forte, se mostra suave e acompanhante em certas partes, ao mesmo tempo que o violino assume uma agressividade nos solos que não lhe é atribuída na música clássica. O contrabaixo, apesar de seu tamanho sonoro, não se limita ao papel de coadjuvante e lança graves que surpreendem diante do virtuosismo dos colegas de cordas. A fusão destes elementos traz algo original ao trio, uma potência, uma união de idéias bastante frutífera.

Krassik (violino), Yamandu (violão) e Wirtti (contrabaixo)

Em contraponto ao resultado do trio, Yamandu não deixou de explorar seu material solo. Quando Cebolão surge, logo percebemos um sotaque rústico, algo de combativo já transparece na cadência do músico. Notas fortes e um tanto abstratas abrem com elasticidade as 'brincadeiras' comuns ao violão livre do violonista. Quando a melodia surge, é evidente a influência do nordeste brasileiro e sua animação, sua criatividade em criar com o pouco disponivel. A comparação com o povo nordestino é revelada também na sofreguidão de partes arrastadas que, apesar de leves, têm o seu significado maior. Yamandu Costa não se esquece disso e lembra da sobrevivência inerente àquele que precisa continuar firme, o otimismo volta e bate mais rápido do que antes, com vontade. O nome da composição vêm da afinação Cebolão para viola, muito utilizada em todas as partes do Brasil. Para entender mais sobre ela, clique aqui.

Uma surpresa incrível acontece logo em seguida. Uma choro lento de Dilermando Reis é tocado com tanta calma e paciência que quase duvido serem os dedos de Yamandu que a tocam. Se Ela Perguntar é praticamente uma valsa brasileira com poucas variações e uma paz romântica contida que chega a ser translúcida. O surpreendente aqui é a ausência dos socos e ritmos acelerados com que Yamandu fez seu som característico. Várias vezes convidado a gravar músicas clássicas, ele sempre as recusou gentilmente ao alegar que seu compromisso é com a popular. Outras tantas vezes xingado pelo seu excesso de virtuosismo, agora ele prova que pode tocar como um concertista, um violonista clássico sem qualquer embaraço. De fato, esta música é uma resposta à todos que duvidaram que seu talento pudesse ser controlado.

Claro, depois de alguma reflexão, os três amigos voltam a extravazar. Batendo com vontade e sabendo até onde ir, Missionerita é uma homenagem ao tradicionalismo gaúcho, terra de Costa e Wirtti. A mistura da melodia simples e imaginação abre o carrossel que a percussão oferece. Os batuques do baixo acústico com violino ao fundo lembram a multifuncionalidade que não só as cordas oferecem, mas também suas caixas acústicas.

Voltando ao solo work com Jangada, de Maurício Carrilho, Yamandu brilha com ventilação, ou seja, se projeta com acordes leves sem abandonar um virtuosismo normal, nada sobre-humano, como declara a última música do álbum, a releitura de Sampa. Figurinha marcada nos seus shows por quase 4 anos, Yamandu produziu algo completamente novo a partir do arranjo de Caetano Veloso. Com exceção da entrada, refrão e introdução ao final, o resto é todo improviso, recheado de passagens livres, com meios e fins no melhor exemplo que o jazz poderia inspirar. É neste caso que Yamandu começa o scat com mais afinco e concentração. Para aqueles que não estão familiarizados, scat é uma técnica que consiste em imitar notas musicais com a voz, porém sem produzir palavras. Ele faz algumas tentativas mais produtivas do que no registro de Sampa do álbum Yamandu Costa Ao Vivo, de 2003, em sintonia com seu lado mais consciente do som refinado que o violão produz. Você pode ouvir um exemplo desta técnica aqui.


Krassik e Yamandu

O som com toques nordestinos tem um exemplo mais maduro e fiel com Bonitinha, penúltima composição do trabalho. Com mais melodia, mais agilidade, porém menos feeling social apresentam uma técnica mais próxima de experimentação do instrumento, um estudo maior sobre o ritmo e seus sons do que uma idéia-guia.

A partir daqui, o conjunto de dedos do trio mostra o filé mignon da produção em questão. Em Xodó da Baiana, a ginga brasileira e o balanço do choro trazem sorrisos já na harmonia e pequenas notas. A linha melódica vai de violão pra violinio sem marcação muito sólida, o contrabaixo salpica toques acima deles enquanto nada fica muito certo se foi ensaiado. O conceito de improvisação sem prévia confirmaçao funciona muito bem e transforma Xodó... na principal criação do álbum. Como que para quebrar a vibração, Petit Tristesse traz uma certa melancolia à atmosfera. Composta novamente por Krassik e Yamandu, a 'pequena tristeza' é uma aproximação elegante do folclore francês de baladas. Krassik, violinista apaixonado pelo choro, mas arraigado às raízes, tece uma canção tamanho é seu fraseado. Ao sugerir quase uma voz humana ao produto final, Yamandu fica mais pra acompanhante que solista, sua função favorita mesmo em grupos.


Wirtti e Yamandu

Dentre todos estas músicas, todas tão diferentes entre si, a contagiante Encerdando alegra o ambiente como um festa inteira. Com solos breves e expansivos, a conexão entre agilidade e harmonia é essencial para a fórmula funcionar com perfeição.

Após escutar o que Ida E Volta tem a oferecer, é esperado que se tenha bastante musicalidade na cabeça, uma vontade maior ainda de escutá-lo novamente e descobrir mais detalhadamente cada acorde. Geralmente a produção de álbuns instrumentais almeja ser mais expansiva em seu desenvolvimento e agregar diferentes valores ao todo resultante. Com Yamandu Costa, Nikolas Krassik e Guto Wirtti traz um novo nível no padrão de quão influenciável o som pode se tornar. No começo deste post falei no âmbito global que o álbum pode ser classificado. Pois bem, idéias que convergem desde o nordeste até a França, da música clássica ao puro improviso são o combustível para que a audição seja o mais universal possível e não somente ofereça elementos conhecidos, mas ofertar um conceito musical novo e fresco, sempre.

Músicas:

Temporal
O Sapo e o Grilo
Ida e Volta
Cebolão
Se Ela Perguntar
Missionerita
Jangedeiro
Xodó da Baiana
Petite Tristesse
Encerdando
Bonitinha
Sampa


Você pode ouvir o álbum na íntegra através da Rádio UOL neste link.

Logo abaixo você pode conferir o trio improvisando sobre Temporal, em show na Alemanha:
Parte 1



Parte 2 (a partir dos 3min, o trio engata Vento dos Mortos, gravado no álbum Lida)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Paulo Moura e Yamandu Costa - El Negro Del Blanco



É estranho e motivador um grande músico morrer. Estranho, claro, pela falta que sabemos que sentiremos do artista que tanto nos influenciou. Motivador por que toda sua produção será olhada com outros olhos, com diferentes sensações ao saber que aquilo é tudo: não haverá o novo, somente a cópia. Me sinto assim desde ontem à noite, quando soube que o clarinetista Paulo Moura havia morrido de linfoma horas antes. Não foi uma morte qualquer de um músico que não conhecia. Tudo graças ao álbum El Negro Del Blanco (Biscoito Fino, 2004), que Moura gravou ao lado do violonista Yamandu Costa, um dos instrumentistas mais significantes na minha formação musical.

Na epóca do seu lançamento, adquiri uma cópia assim que o vi na prateleira e nunca me arrependi. Adimito, o comprei pelo som do Yamandu, que tanto admiro. O fato de Moura estar lá era um detalhe. Ouvir faixa após faixa, sem pausas e sem interrupções é parte do processo de cada trabalho que encontro, porém este foi mais longe. Ao contemplar o som encorpado de Yamandu encontrei o contraponto harmônico de Moura, um bálsamo de beleza em cada passagem.

Toda a ideologia do disco vêm da fusão das vertentes latino-americanas do violão de Costa com a brasilidade presente na clarineta de Moura. Uma virtuosidade e várias melodias que existem lado a lado e pouco são exploradas juntas por não serem 'naturalmente compatíveis'. Ambos instrumentistas já haviam entendido essa possibilidade simplesmente por tocarem juntos em sarais Rio de Janeiro afora. A idéia de gravar tais arranjos informais veio da esposa de Paulo, Halina Grynberg, ao perceber tamanha afinidade no som deles. Com a escolha óbvia de temas que vão do cancioneiro cubano ao chorinho carioca, a mistura nos faz lembrar que Halina teve uma ótima sugestão.

Na faixa-título, composta pelos dois, as cadências não dão limite aos improvisos e pequenas modificações possíveis. Através de cada rapidez de escalas e voltas relaxantes ao começo a combinação de timbres encanta. Com surpresa e perfeita junção, o medley Um Chorinho em Aldeia/Na Glória mostra que a velocidade não é inimiga de boas melodias. (Ambas se tornaram conhecidas através das orquestras populares que tocavam nos bailes por volta da metade do século). Sem dúvida a agilidade dificulta a compreensão numa primeira audição, porém o maravilhamento que resulta dali é a surpresa de duas peças parecerem tão fundidas a ponto de não se largarem mais. O fôlego de Moura é bastante resistente, acredite.

As próximas três interprtações são de origem latina. Duerme Negrito tem a qualidade das canções de ninar em espanhol que suavizam o ambiente e acalmam os brutos, enquanto La Paloma compartilha a sensação de sonolência que milhões de trabalhadores procuram após o almoço. Inclusive, esta habanera foi composta no século XIX e é considerada a primeira habanera. Em seguida chega a veloz Valsa Venezuelana, a prova de que Yamandu realmente toca com virtuosismo e vigor únicos. Aqui Moura fica só no acompanhamento melódico, algo simples e dentro do compasso. Também é nessa estrutura que percebemos a força resultante entre o leve e o pesado. Enquanto o violão assume o controle, a clarineta vem só massagear e relembra que por trás de toda complexidade há o básico, o trecho primordial que formula tudo. Sem isso não há nada. Como dizia Charles Mingus: "Tornar o simples complicado é fácil. Transformar o difícil em simples, isso sim é criatividade."

Aí voltamos pro choro. Jacob do Bandolim transcendeu quando tornou o fraseado mais limpo e envolvente, o que Paulo refaz em Simplicidade com esta peça-chave no repertório de Jacob. Sem isso, os acordes amistosos do violão de 7 cordas, tão tradicional no chorinho, seriam solitários. A virtude de criar em cima dele são tão grandes que Yamandu vai, volta e completa as pinçadas que Moura dispara (com elegância) todo tempo. Sons de Carrilhões, talvez a composição mais característica do gênero, veio pronta neste álbum. Completa, redonda, encachada, o adjetivo que for: vejo a versão fiel da partitura mais dificil perto dessa, que moleza, que fluidez! Não poderia ser diferente vindo do sopro natural de Moura e a suavidade de Costa (quando ele quer assim).

Porque quando não quer, a pancada vêm forte. Decaríssimo marcha pros lados de Piazzolla, o compositor. Arranjo forte, bem planejado. Lhes digo, nessa o solo vêm de trem e não pára antes de 100km/h! Yamandu brinca de tentar 200 notas por minuto e (só contando uma por uma) acho que chega perto! Moura não é chegado a tantos virtuosismos, como é vísivel até essa altura da audição, porém extravaza com competência e dentro dos padrões, assim como em Carrilhões.

O último representante brasileiro é um medley de canções de Baden Powell, quase um avó do violão moderno no Brasil. Através de pequenos trechos de Samba Triste, Lapinha, Samba da Bênção e Pra Que Chorar, todas colaborações de Powell com Billy Blanco, Paulo César Pinheiro e Viníciius de Moraes (nas duas últimas) respectivamente, o samba predomina entre os mais felizes motivos à contemplação da tristeza sem dificuldades. Grande parte do arranjo é resoluto, compacto, mal se percebe passar de uma harmonia a outra, sem contar que as letras, naqueles que as conhecem, surgem fácil nos lábios.

Voltando aos latinos-americanos, De Camino a La Vereda, do veterano cubano Ibrahim Ferrer, é um frevo canhoto, daqueles que faz a cabeça dançar por dentro e por fora. Algo que não muda ao ouvirmos a contemplativa Gracias A La Vida, grande sucesso de Violeta Parra nos anos 70. Existe nesta pequena obra um calor diferente do apresentado no álbum inteiro. Um misto de tristeza e esperança perpassa as notas e lembra remotamente aquele clima que todo espetáculo da Mercedes Sosa possuia. Não importa quem a toque, a a sensação é a mesma. Elis Regina também atingiu um estágio de sublimação que me deixa arrepiado até a alma. Enfim, Moura/Costa vão evoluindo com entusiasmo exemplares, o que torna esta a minha peça favorita da dupla.

Pra fechar os trabalhos, o clássico de Mariano Mores fecha com toques dramáticos o acento gaúcho SEMPRE presente nas cordas de Yamandu. Taquito Militar é daquelas que todo músico que vive junto da cultura hermana sabe e executa em volta da fogueira. Assim como Asa Branca no nordeste e As Pastorinhas do Rio, Taquito representa uma união de pessoas que vivem perto, compartilham pensamentos e exalam emoções semelhantes, um som puro que os caracteriza. Aqui eles (Paulo e Costa) brincam com os andamentos e  acordes largos e rispidos, algo com desenvoltura passeando pela malandragem.

Imagem retirada do encarte do álbum (Yamandu a esquerda e Moura a direita)

Algo que notei com carinho entre todas as obras foi o final. Todas chegam calmamente, sem aquela pressa de não haver o que dizer. Passagens longas e espaçosas deixam o ouvido ressoando melhor o que já escutou. É com essa nostalgia que não me esqueço de Paulo Moura. Sempre que o ouço a atmosfera  permanece aberta em possibilidades de felicidade e agitação. Nada melhor do que ouví-lo também tocando sax alto e soprano com dedicação e firmeza que pessoas do porte de Cannonball Adderley o escolheram para gravar junto sob o mesmo instrumento. Yamandu Costa também não fica pra trás e surpreende por dar espação às liberdades do companheiro, uma atitude nobre de um recente gênio na presença de um grandioso mestre de suas capacidades.

Para os que curtiram o som, Moura gravou um disco de sonoridades bem parecidas com o também aclamado Raphael Rabello, chamado Dois Irmãos (1992). Nele há outra versão para Um Chorinho Em Aldeia. É interessante conferir as diferenças e semelhanças entre o toque dos violões e a harmonia que Moura tece em volta deles.

Logo abaixo você pode conferir uma entrevista dada pelo violonista sobre a concepção do álbum, a relação com Paulo Moura. e seus projetos futuros. Em seguida assista um trecho do programa Ensaio, gravado em 2004, que contêm La Paloma, Simplicidade e um pouco da voz de Moura.


domingo, 11 de abril de 2010

SHOW - Yamandu Costa e Hamilton de Holanda: Luz da Aurora



O ciclo de lançamentos de álbuns atualmente vêm se invertendo: ao invés de distribuir o trabalho e depois fazer a turnê, Yamandu Costa e Hamilton de Holanda primeiro amadureceram o repertório durante os shows para depois registrá-lo. O resultado, que beira a perfeição, se encontra em Luz da Aurora, gravado em 18, 19 e 20 de janeiro de 2008 no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

Apesar do espetáculo de ontem a noite, dia 10 de abril, ter dois anos de distância desde o fim de semana que foi gravado, a perfomance só acrescentou beleza àqueles que já conheciam as músicas. É notório que qualquer apresentação ao vivo é mais empolgante que o som nos autofalantes de casa, mas o entusiasmo e os improvisos fizeram um novo show a parte para os fãs e os novos ouvintes.

Como a própria dupla declara e evidencia, a parceria na amizade é a semente de tamanho entrosamento e felicidade transmitidas nas composições. Ao dividirem os créditos, ora solo ora em dupla, o conceito musical torna-se totalmente pessoal, o que gera mais autonomia na linguagem de ambos. A única não composta por eles é Escorregando, de Ernesto Nazareth, como bônus depois de tanta introspecção


No show deste sábado, porém, Radamés Gnatalli foi o escolhido para abrir a performance. O Quarto Movimento, dedicado a Pixinguinha, da Suíte Retratos esparramou técnica e virtuosismo tanto nos acordes inóspitos quanto nos solos relembrados do mestre do choro brasileiro. Com o ótimo equilíbrio entre a estridência do bandolim e o grave encorpado do violão, a premissa era de muito espaço para todas as idéias que surgissem, o que não demorou a acontecer.

Logo em seguida, Samba do Véio reforça o lado chorão (apelido aos bons intérpretes do choro) de Hamilton, fortemente enraizado no estilo. Yamandu não desaponta e oferece um braço forte como harmonizador. Essa música foi concebida em homenagem ao lendário cavaquinista Six, um dos membros do famoso Clube de Choro de Brasília, que ambos instrumentistas conheceram e tocaram juntos.

Chamamé, presente no primeiro álbum do violonista, foi revisitada e contemplada com novo arranjo para a dupla. Solos, passagens ágeis e muito espaço para improvisação dão uma sobrevida à melodia já conhecida dos fãs, uma mudança criativa de andamentos sucessivos perfeita para ambos se refestelarem. Ao cabo de 9 minutos, Hamilton de Holanda pega o microfone e pergunta à platéia gaúcha: "Então, passei no teste do chamamé?" O público confirma numa vigorosa salma de palmas e risos satisfeitos.

A primeira valsa da noite é Meiga, outra composição de Yamandu que, infelizmente, não contou a origem dela. Esclarecida durante o show do álbum Tokyo Session em 2008 no Salão de Atos da UFRGS, Yamandu revelou que estava em turnê pela Espanha quando, após uma apresentação, foi ao bar mais próximo se divertir com os companheiros de show. Ao avistar uma bela mulher, começou a cortejá-la, tentando de todas a maneiras uma maior aproximação, ao passo que a moça se mostrava fechada. Lhe contou que era brasileiro: nada; que era músico: nada. Então, numa última cartada, pegou o violão, improvisou uma melodia e disse que lhe daria o nome Meiga, o nome dela. Mesmo assim, ela não se convenceu e Yamandu ficou sem a mulher, mas com uma música nova e uma boa história pra contar.

 Cartaz original da gravação ao vivo

Ao visitarmos o trabalho de Hamilton, logo nos deparamos com um som rasgante e bastante conciso. Através de 01 Byte, 10 Cordas, sua música mais conhecida, o público ficou pasmo com a desenvoltura do bandolinista já na introdução. Logo mais, a evolução da mesma abriu outro vulcão de idéias semelhante ao de Chamamé, com improvisos surpreedentes e vários acordes cheios. Sem dúvida, foi o ponto alto, se é que se pode voar mais acima do que já haviam feito.

Como um bônus adiantado, Conversa de Botequim veio tão rápida e breve que mau durou dois minutos. Quando parecia que ia evoluir, acabou, o que não a desmerece, mas foi má colocada no meio do setlist, na minha opinião. Samba do Rapha, em homenagem ao grande Raphael Rabello, mostrou a compatibilidade entre a musicalidade de ambos. Mesmo sem grandes saltos, a melodia bem ensaiada recorda a disciplina e qualidade intrínsecas ao trabalho de Rabello, morto em 1995. O seu legado o precede a todos os músicos depois dele com reverência, sejam de alunos de cordas ou não, algo visível e elogiada por ambos, Yamandu e Hamilton.

Voltando aos climas calmos e contemplativos, Flor da Vida e Luz da Aurora acendem o lado mais amoroso e saudosista em todos os presentes. De cabeças baixas e movimentos leves, os artistas acham ternura em cada nota, bebem suavidade e carinho sem desembaraço diante do público que também se fragiliza. Luz da Aurora, que dá nome ao disco, é uma respeitosa saudação às avós dos músicos, por coincidencia, ambas chamadas Aurora. Yamandu já havia feito outra menção a ela num virtuose tema como o mesmo título, mas que compartilhava pouca doçura em comparação com a parceria de Hamilton. Comentando sobre ela, depois de tocá-la, Yamandu disse que sua avó já não pode mais ouvir, num tom mais divertido, mas que mesmo assim ela gostaria do resultado.


Ao anunciar a saideira, adiantar que os exemplares do disco estarão postos a venda no hall de entrada e já os classifica como 'coisa rara', dado a boa vendagem do material até o momento, Shiawase fechou o espetáculo. Ao contar que a compôs no Japão e a tradução do título para 'alegria' em japonês, Yamandu arrancou boas risadas ao lembrar os japoneses cantando pequenas canções folclóricas do país. Como todo show, após saírem do palco, o publico vibrou por um bis até ser atendido. Sentados novamente, improvisos sobre uma introdução desconhecida fisgaram a atenção. Quando o primeiro compasso de Adios Nonino saiu, o teatro veio abaixo com aplausos que logo silenciaram para melhor escutarem a adaptação do tango de Astor Piazzolla. A comoção pelo número se deu por outras perfomances da mesma executadas em Brasília e São Paulo, muito elogiadas e que fizeram sucesso no Youtube. Enfim, o palco e os ouvidos brilharam com tamanha imaginação que o violão e o bandolim extraíram da melodia (aparentemente) simples, porém, com variações infinitas.

Incrível também, não se deve esquecer, foi o jogo de luzes que encheu os olhos da platéia. Canhões de azul, branco e vermelho (como os filmes de Kieslowski) deram uma elegância, um toque sofisticado e vários relances interessantes dos intrumentos que só melhoraram o show.

Claro, nem tudo que está no álbum esteve no show. Obras como Cochichado, Estações e Escorregando ficaram de fora, mas em compensação deram espaço à versões inéditas para Radamés, Noel Rosa e Piazzolla. Quem sabe hoje, domingo (11/04) elas não entrem no setlist? Yamandu e Hamilton se apresentam hoje novamente no mesmo teatro, porém às 19h.

A seguir, você pode ver e escutar a versão de Samba do Véio, gravada logo após uma entrevista concedida ao site do jornal O Estado de São Paulo, que você confere logo abaixo.