quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

The Jazz Loft Project

The Jazz Loft Project é a descoberta e divulgação de um dos maiores acervos informais (até agora) da história do jazz. O loft a que se refere o nome é o apartamento localizado no quarto andar da 821 Sixth Avenue, em Nova York. De 1957 a 1965, foi palco de ensaios, discussões e berço de intelectuais e artistas, prinpalmente músicos de jazz.



Por iniciativa de Sam Stephenson, escritor e instrutor da Center for Documentary Studies, da Duke University, o gigantesco material (mais de mil rolos de áudiotape) foi ouvido e digitalizado, resultado: 5,079 CDs. Entre uma gravação e outra, é possível ouvir desde ensaios inteiros de Thelonious Monk trabalhando com sua big band antes do histórico Town Hall Concert até conversas de telefone entre W. Eugene Smith e seus amigos.

Eugene, o idealizador de tais gravações, era fotógrafo e se mudou para Nova york em 1957 após viver e trabalhar por quatro anos em Pittsburgh. O objetivo principal na época era gravar seus gatos, que todos diziam ser muitos. Logo, ao dividir o lugar com um pintor, amigos começaram a visitá-lo e, entre eles, havia um baterista. Sem demora seu flat tornou-se ponto de encontro de gênios (Salvador Dalí e Norman Mailer passaram por lá) e os jazzistas o assumiram como segunda casa criativa (a primeira é o palco). É confirmado que se divertiram e tocaram caras como Chick Corea, Paul Bley, Zoot Simms e Roland Kirk, entre tantos outros. Um total de 3 mil horas de som ambiente entre músicas e banalidades está preservado dentro do prório apartamento. Fotógrafo de mão cheia, também tirou mais de 40 mil fotos destas jam sessions.

Para divulgar tamanho conteúdo, Stephenson lançou o livro The Jazz Loft Project: Photographs and Tapes of W. Eugene Smith from 821 Sixth Avenue, 1957-1965 em novembro de 2009. Através de descrições, detalhes e curiosidades dos 8 anos de vida musical do local, Stephenson produziu mais um documento da efervescência jazzística dos anos 50 e 60 em Nova York com fotos, transcrições diretas e momentos off stage de várias personalidades. Para acessar o site oficial do projeto e ler o prefário do livro, clique aqui.

Paralelo ao livro, a rádio WNYC lançou, em 16 de Novembro, uma série divida em 10 episódios sobre o impacto cultural que o local despertou no gênero. Você pode escutar todos os capítulos, inclusive os ainda não veiculados, pelo página do The Jazz Loft Project na WNYC.

Para assistir o vídeo com Sam Stephenson dentro do antológico loft e seu acervo, acesse o link abaixo:
http://www.amazon.com/gp/mpd/permalink/m2F7FQURY74F2L

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O jazz na novela das oito ou por que assistir Viver A Vida

Quando digo que o jazz está em todos os lugares, pode até soar como piada, mas não é. Uma prova concreta disso é a trilha sonora da novela das oito que passa às nove, Viver A Vida. Do lado nacional, o melhor da música brasileira tradicional (Tom Jobim, Cássia Eller) e contemporânea através de Ana Cañas, Maria Gadu e Roberta Sá se revela e aí mora uma surpresa incrível interpretada por um cantor inusitado (veja quem é mais abaixo). Porém é no internacional que o jazz aparece com força: Jamie Cullum, Diana Krall e Melody Gardot destilam o licor supremo dos standards em novas roupagens, sem falar na linda remixagem de My Funny Valentine por Living Theater.

JAMIE CULLUM - SINGIN' IN THE RAIN
Singin' In the Rain - Twentysomething (Special Edition)

São raras as pessoas que não consigam se lembrar da clássica cena de Gene Kelly embaixo da chuva, mais feliz impossível. O cantor e pianista inglês Jamie Cullum, ao lançar o álbum Twentysomething em 2004, incluiu a música de mesmo nome do filme ao repertório. Despojado de qualquer fronteira musical e sem receio de incitar novos ares em antigas letras, Cullum amaciou os versos e diminui o ritmo a ponto de transformar a canção numa balada com fortes toques de Frank Sinatra. Através de violinos, percurssão e um teclado bastante lânguido, a atmosfera alegre e eufórica de Kelly sai de cena e deixa um clima de nu-jazz limpo e relaxante. O scat simples, uma mera sonorização da melodia, contribui com leveza, mesmo que não lembre a versão original. Durante os shows ao vivo, Cullum recorre ao scat do filme e improvisa com espontaneidade, a sua maior característica junto aos chutes e socos ao piano. Na novela, não reconheci a identificação musical com nenhum personagem em particular: a canção é bastante usada nas tomadas áreas, onde o Rio de Janeiro mostra suas belezas entre um núcleo e outro. A escolha deu resultado.



DIANA KRALL - TOO MARVELOUS FOR WORDS


Uma das, senão a mais segura cantora de jazz dos últimos 20 anos, Diana Krall mais uma vez bebe na fonte da bossa nova com Too Marvelous For Words. Com música de Richard A. Whiting e letra de Johnny Mercer, esta composição é gravada há mais de 50 anos por intérpretes da música norte-americana e se tornou um stardard, ou seja, uma canção que integra o grande songbook não declarado de uma cultura, assim como Águas de Março é figura marcada em retrosectivas de música brasileira. A combinação entre bossa nova e smooth jazz é tênue, mas a principal característica é aquele violão tímido guiando todo o resto, nesse caso em igualdade com o piano de Krall. Isso mostra que o conjunto clássico pode se sobressair diante das mixagens e fusões excêntricas (alias, ótimas) da atualidade. A letra e a melodia principais intactas e no tempo certo, talvez um pouco mais lento pra bossa, dão força ao tom rotineiro de Krall sem perder o sabor. Retirado de seu mais recente álbum Quiet Nights, onde todo repertório segue a mesma linha, a demanda pelo jazz tradicional cresce, mas não é o suficiente para a evolução do gênero. O mesmo problema de Cullum também aparece aqui, sem identificação musical específica.

Diana Krall - Too Marvelous For Words by user74603


MELODY GARDOT - OVER THE RAINBOW
Over the Rainbow - My One and Only Thrill

Este sim, o cânone dos primórdios do cinema que virou jazz, merece todos os aplausos. Sensação nos últimos anos, a cantora Melody Gardot transforma tudo e reinventa o trabalho de Harold Arlen (presente em O Mágico de Oz) em música nova. A voz consistente e a modificação de tempo, arranjo e melodia enlevam o ouvinte a um estado natural de perfeitas cores e diferentes aromas. Apesar de todos os elementos serem familiares, os acordes se apressam e modulam sem laços enquanto os versos mudam felizes e tristes sem qualquer previsibilidade. Parte integrante de Baby I'm A Fool, segundo trabalho de Gardot, o desafio de oferecer uma nova face ao saturado número de versões existentes foi extremamente bem sucedido. Em Viver A Vida, a música é pano de fundo para a personagem de Natália do Vale, dona de um estúdio de fotografia especializado em clientes maduras, na casa dos 40 anos pra cima. Ao perceberem que ainda são sensuais e desejam mostrar-se por inteiro, o ato de revelar sua intimidade muitas vezes precisa de calma e preparação, oferecidas pela proprietária. A mensagem que ambos, vídeo e som, passam é de que o tradicional, o consagrado, também pode ser belo e repaginado até a perfeição, sem medos e preconceitos de parecer 'careta'. A ironia entre a situação das clientes e da idéia semeada na trilha sonora casaram com sofisticação, mais uma prova do impacto das inovações.



LIVING THEATER feat. P. MELA - MY FUNNY VALENTINE

Após tamanha satisfação com Over The Rainbow, o tema dos personagens interpretados por Giovana Antonelli e José Mayer é equilibrado em seu conteúdo e sentido. Dora (Antonelli) é amante-de-uma-noite de Marcos (Zé Mayer) quando este vai para Parati. Em seus encontros ou lembranças sobre os momentos passados juntos, o remix de Rodgers & Hart pelas mãos de P. Mela (não pergunte, não pergunte...) é ambientação mais cool de todas, eu diria. Quando realmente parei para escutar a canção e seu contexto, não pude deixar de sorrir com a
experimentação. A letra de Lorenz Hart resume o afeto de uma 'namorada divertida' e suas impressões no namorado. Tanto homens quanto mulheres trabalharam esta canção durante décadas, mas a versão considerada mais fiel, a mais sublime de todas é a de Chet Baker. Gravada em 1953 no LP "Chet Baker Sings", ela é basicamente voz, piano e contrabaixo (ouça AQUI). Ok, tem um pouco de bateria também, discretamente...

As sutilezas e descrições de um amor ao ser amado são quase banais ao mencionar boca, cabelos e sorriso, porém a interpretação dela traz à mente os sentimentos mais nobres e simples do ato humano, daí sua força emotiva. Ao intercalar tais nuances com batidas eletrônicas e contrapontos de trumpete, a ternura continua lá e comove pela levada, quase uma canção de ninar, uma lullaby. Ao ver Dora e Marcos se beijando no mar ao embalo pontuadíssimo da melodia de Rodgers, é inevitável aliar tais detalhes ao coração e intimidade dos personagens em cena. É outra brincadeira (ou não) da produção da novela combinar um caso extraconjugal com emoções sinceras que supostamente não poderião haver na infidelidade. Além de tudo, a edição é redonda, sem momentos de pouca interação ou falta de clímax. Esta 'roupagem' está no Viver A Vida - Lounge, uma compilação de títulos aquém do padrão Globo de trilha sonora: músicas lounge mesmo, pra dançar, curtir ou refletir durante a noite.

Living Theater feat. P. Melas - My Funny Valentine by user74603


CAETANO VELOSO - THE MAN I LOVE
The Man I Love - A Foreign Sound

Finalmente a surpresa brasileira! Sendo a única música cantada em inglês dentro das escolhas em português, Caetano inovou, sim, mas também estranhou um bocado. Composta em 1932 pelas irmãos Gershwin, os versos falam especificamente da esperança da mulher ao amor que virá, o homem que ela amará, em tradução literal. Também no núcleo de Zé Mayer, seu papel é 'abençoar' a relação de Marcos e Helena, sua esposa, interpretada por Taís Araújo. Nada melhor que uma canção romântica e positiva pra caracterizar uma paixão ardente! Através de outra pérola de edição, cada que vez que toca a cena toma um ar de delicadeza, de sublimação do sentimento em comum. Até aí tudo bem, o que incomoda em primeiro plano é a voz masculina de Veloso oralizando a letra. Por motivos óbvios, nenhum cantor gravou esta composição. A Foreign Sound, álbum do artista baiano totalmente dedicado à músicas estrangeiras em inglês, traz Nirvana, Bob Dylan, Cole Porter e outras obras dos Gershwins, inclusive Summertime, mas de longe nenhuma delas foi um choque tão revolucionário quanto The Man I Love. Possuidor de uma voz que consegue vibrar perto do registro feminino, a impressão que fica é a do lado-mulher de Veloso interpretando e não o macho, deliberadamente. Não recrimino, penso que é válido como obra de arte uma interação no mínimo inusitada.


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Melody Gardot - http://twitter.com/mgardot
Jamie Cullum - http://twitter.com/jamiecullum
Diana Krall - http://twitter.com/DianaKrall

Obs: Caetano Veloso, Living Theater e P. Mela não tem perfis oficiais.