segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Yamandu Costa - Ida E Volta



Se o assunto é jazz, qualquer pessoa consegue dizer quem é Miles Davis ou John Coltrane, pelo menos. Se perguntados, quase todos já ouviram falar de Billie Holiday ou Louis Armstrong. Porém, essa distinção 'clássica' do que é o verdadeiro jazz caiu por terra há muito tempo. Músicos agregaram vertentes e inspirações de todos os lugares possíveis (Dizzy Gillespie e a música cubana, por exemplo) e o ritmo está muito rico, mas também quase impossível de identificá-lo plenamente. O próprio Tim Maia, quando não conseguia classificar algo, tinha a famosa frase "Isso aqui tá o maior jazz!".

Foi com esse conceito mundial-musical que consegui compreender o álbum Ida E Volta. Em 2007, o violonista Yamandu Costa saiu da categoria de música brasileira e entrou no mercado global ao gravar com o violinista Nicolas Krassik e o contrabaixista Guto Wirtti um álbum em Bruxelas. Pra início de conversa, o formato do trio já sugere maior versatilidade: violão, violino e contrabaixo possuem timbres bastante diferentes, o que já abre muitas portas. O fato de Krassik ser um cidadão francês radicado no Rio de Janeiro e Yamandu ter tocado nos cinco continentes traz uma maior experiência ao grupo, também composto pelo gaúcho Wirtti, acostumado aos palcos.

Tudo começa com Temporal, composição de Yamandu e Krassik. Longe de ser a mais tempestiva do álbum, ela apresenta o nível de simplicidade e liquidez dos arranjos que estão por vir, o que não a torna somente uma alegoria. Não, Temporal joga com os possíveis contrapontos entre violão e violino, algo que sugere um som audacioso, uma combinação bastante pessoal entre o modo de tocar de cada artista. Logo depois, O Sapo e O Grilo, parceria entre Wirtti e as 7 cordas, faz o mesmo que sua antecessora, porém num tom mais humorístico: penso que o sapo é o gigante contrabaixo, o grilo o modesto violão.

Na faixa 3, que dá nome ao disco, a união dos três instrumentos fica perfeita. Todos atacam com uma força e energia que dá a chance inicial aos três trabalharem juntos adiante. Ida E Volta é uma metáfora sobre as transformações que a musicalidade da América Latina, com seus chamamés e zambas, passa ao entrar em contato com as influências européias tanto da valsa quanto do flamenco. A perspectiva que se forma é sempre mista, onde cada instrumento expressa sua origem, mas ousa no toque de outra cultura. Por exemplo, o violão, que simbolizaria a música latino-americana, mais forte, se mostra suave e acompanhante em certas partes, ao mesmo tempo que o violino assume uma agressividade nos solos que não lhe é atribuída na música clássica. O contrabaixo, apesar de seu tamanho sonoro, não se limita ao papel de coadjuvante e lança graves que surpreendem diante do virtuosismo dos colegas de cordas. A fusão destes elementos traz algo original ao trio, uma potência, uma união de idéias bastante frutífera.

Krassik (violino), Yamandu (violão) e Wirtti (contrabaixo)

Em contraponto ao resultado do trio, Yamandu não deixou de explorar seu material solo. Quando Cebolão surge, logo percebemos um sotaque rústico, algo de combativo já transparece na cadência do músico. Notas fortes e um tanto abstratas abrem com elasticidade as 'brincadeiras' comuns ao violão livre do violonista. Quando a melodia surge, é evidente a influência do nordeste brasileiro e sua animação, sua criatividade em criar com o pouco disponivel. A comparação com o povo nordestino é revelada também na sofreguidão de partes arrastadas que, apesar de leves, têm o seu significado maior. Yamandu Costa não se esquece disso e lembra da sobrevivência inerente àquele que precisa continuar firme, o otimismo volta e bate mais rápido do que antes, com vontade. O nome da composição vêm da afinação Cebolão para viola, muito utilizada em todas as partes do Brasil. Para entender mais sobre ela, clique aqui.

Uma surpresa incrível acontece logo em seguida. Uma choro lento de Dilermando Reis é tocado com tanta calma e paciência que quase duvido serem os dedos de Yamandu que a tocam. Se Ela Perguntar é praticamente uma valsa brasileira com poucas variações e uma paz romântica contida que chega a ser translúcida. O surpreendente aqui é a ausência dos socos e ritmos acelerados com que Yamandu fez seu som característico. Várias vezes convidado a gravar músicas clássicas, ele sempre as recusou gentilmente ao alegar que seu compromisso é com a popular. Outras tantas vezes xingado pelo seu excesso de virtuosismo, agora ele prova que pode tocar como um concertista, um violonista clássico sem qualquer embaraço. De fato, esta música é uma resposta à todos que duvidaram que seu talento pudesse ser controlado.

Claro, depois de alguma reflexão, os três amigos voltam a extravazar. Batendo com vontade e sabendo até onde ir, Missionerita é uma homenagem ao tradicionalismo gaúcho, terra de Costa e Wirtti. A mistura da melodia simples e imaginação abre o carrossel que a percussão oferece. Os batuques do baixo acústico com violino ao fundo lembram a multifuncionalidade que não só as cordas oferecem, mas também suas caixas acústicas.

Voltando ao solo work com Jangada, de Maurício Carrilho, Yamandu brilha com ventilação, ou seja, se projeta com acordes leves sem abandonar um virtuosismo normal, nada sobre-humano, como declara a última música do álbum, a releitura de Sampa. Figurinha marcada nos seus shows por quase 4 anos, Yamandu produziu algo completamente novo a partir do arranjo de Caetano Veloso. Com exceção da entrada, refrão e introdução ao final, o resto é todo improviso, recheado de passagens livres, com meios e fins no melhor exemplo que o jazz poderia inspirar. É neste caso que Yamandu começa o scat com mais afinco e concentração. Para aqueles que não estão familiarizados, scat é uma técnica que consiste em imitar notas musicais com a voz, porém sem produzir palavras. Ele faz algumas tentativas mais produtivas do que no registro de Sampa do álbum Yamandu Costa Ao Vivo, de 2003, em sintonia com seu lado mais consciente do som refinado que o violão produz. Você pode ouvir um exemplo desta técnica aqui.


Krassik e Yamandu

O som com toques nordestinos tem um exemplo mais maduro e fiel com Bonitinha, penúltima composição do trabalho. Com mais melodia, mais agilidade, porém menos feeling social apresentam uma técnica mais próxima de experimentação do instrumento, um estudo maior sobre o ritmo e seus sons do que uma idéia-guia.

A partir daqui, o conjunto de dedos do trio mostra o filé mignon da produção em questão. Em Xodó da Baiana, a ginga brasileira e o balanço do choro trazem sorrisos já na harmonia e pequenas notas. A linha melódica vai de violão pra violinio sem marcação muito sólida, o contrabaixo salpica toques acima deles enquanto nada fica muito certo se foi ensaiado. O conceito de improvisação sem prévia confirmaçao funciona muito bem e transforma Xodó... na principal criação do álbum. Como que para quebrar a vibração, Petit Tristesse traz uma certa melancolia à atmosfera. Composta novamente por Krassik e Yamandu, a 'pequena tristeza' é uma aproximação elegante do folclore francês de baladas. Krassik, violinista apaixonado pelo choro, mas arraigado às raízes, tece uma canção tamanho é seu fraseado. Ao sugerir quase uma voz humana ao produto final, Yamandu fica mais pra acompanhante que solista, sua função favorita mesmo em grupos.


Wirtti e Yamandu

Dentre todos estas músicas, todas tão diferentes entre si, a contagiante Encerdando alegra o ambiente como um festa inteira. Com solos breves e expansivos, a conexão entre agilidade e harmonia é essencial para a fórmula funcionar com perfeição.

Após escutar o que Ida E Volta tem a oferecer, é esperado que se tenha bastante musicalidade na cabeça, uma vontade maior ainda de escutá-lo novamente e descobrir mais detalhadamente cada acorde. Geralmente a produção de álbuns instrumentais almeja ser mais expansiva em seu desenvolvimento e agregar diferentes valores ao todo resultante. Com Yamandu Costa, Nikolas Krassik e Guto Wirtti traz um novo nível no padrão de quão influenciável o som pode se tornar. No começo deste post falei no âmbito global que o álbum pode ser classificado. Pois bem, idéias que convergem desde o nordeste até a França, da música clássica ao puro improviso são o combustível para que a audição seja o mais universal possível e não somente ofereça elementos conhecidos, mas ofertar um conceito musical novo e fresco, sempre.

Músicas:

Temporal
O Sapo e o Grilo
Ida e Volta
Cebolão
Se Ela Perguntar
Missionerita
Jangedeiro
Xodó da Baiana
Petite Tristesse
Encerdando
Bonitinha
Sampa


Você pode ouvir o álbum na íntegra através da Rádio UOL neste link.

Logo abaixo você pode conferir o trio improvisando sobre Temporal, em show na Alemanha:
Parte 1



Parte 2 (a partir dos 3min, o trio engata Vento dos Mortos, gravado no álbum Lida)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Playlists do programa Porão do Jazz

Não anunciei por aqui, mas digo agora: estou fazendo um programa semanal chamado Porão do Jazz, uma continuação dos meus pensamentos musicais a partir do blog.

Totalmente dedicado ao jazz, já entrou na segunda semana de transmissão e não me vejo tão feliz assim em meses!

Minha premissa é básica e espalhar, ensinar e cultivar a paixão e a curiosidade pelo jazz que tanto me satisfaz.Toco desde Frank Sinatra a The RH Factor, de Louis Armstrong a Melody Gardot sem nenhum preconceito, afinal, é tudo jazz da melhor safra.

Como o programa é transmitido às quintas-feiras das 20h às 21h através da Rádio Aham!, algumas pessoas ainda estão trabalhando e/ou estudando neste horário. Pois bem, para que não fiquem sem a oportunidade de escutar as minhas seleções jazzísticas, coloquei no 4shared os playlists dos últimos programas disponíveis para download. Não tem a minha locução e deixo o jazz falar por si (o que não é mau negócio).

Abaixo deixo os links pra cada playllist. É clicar e baixar. Até mais!

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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

30 Days (Jazz) Song Challenge - Dia 4

Dia 4: A song that makes you think about someone
          (Uma música que te faz pensar em alguém)




Tô sabendo que essa pedida é romântica, mas não tem graça ser tão subjetivo. Então, escolhi The Shoes of the Fisherman's Wife Are Some Jive Ass Slippers (algo como Os Sapatos da Mulher do Pescador São Chinelos Tipo Jazz). Só pra esclarecer: essa tradução é bem literal e o original pode sugerir novas abordagens.

Penso no fã (ou não) de jazz que, sem ter qualquer contato com o gênero, esbarrarou no som do baixista Charles Mingus e se perdeu cabeça afora com tanta informação. Mingus é o cara que te sugere tudo embaralhado: a ternura num sax fora de tom ou o extâse com 30 instrumentos improvisando sem qualquer sentido aparente. Quando algo assim chega, ou te enlouquece e vai atrás de mais ou se volta pra zona de conforto e a vida continua.

Espero que a primeira opção seja a mais recorrente.

30 Days (Jazz) Song Challenge - Dia 3

Dia 3: A song that makes you sad
         (Uma música que te deixe triste)




Escolher uma única música que te deixe triste é um desafio diante de um repertório cheio de baladas e dores de cotovelos dentro do jazz em tantas letras de Cole Porter, Gershwin e outros mil. Porém, essa interpretação do Frank pra I'm A Fool To Want You é visceral, é aquela súplica pessoal e sofrida de quem não se importa em diminuir-se em nome do amor. Gravada em 1954, foi uma das responsavéis pela guinada na carreira do cantor que, 3 anos antes, sofreu uma hemorragia na garganta e alguns escândalos pelo affair com Ava Gardner (enquanto ainda era casado) minaram sua popularidade e seu trabalho.

Arranjada pelo mestre Nelson Riddle, ela traz uma tensão pulsante, quase uma ressaca moral por ter errado tanto na vida de casado. Recém separado de Ava e ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por A Um Passo da Eternidade, Sinatra gravou uma balada e uma hot jump (I've Got The World On A String) para o selo Capitol Records. Ambas foram sucessos instantâneos e entraram direto pro seu songbook, mas raramente ele a cantava.

Torneada com arrependimentos e desculpas tímidas, a letra inspira uma humilhação para se voltar a respirar novamente. Com vários alternâncias entre sussurros e notas altas, o resultado te leva direto pra más lembranças e cold rainy days, como todo fim de relacionamento se torna.

Pra não ficar numa vibe ruim, ouça a hot jump.



sábado, 9 de julho de 2011

30 Days (Jazz) Song Challenge - Dia 2

Dia 2: A song that makes you happy
         (uma música que te faz feliz)
 
Caramba, só uma? Putz... Talvez a mais recente, a que estou ouvindo todos os dias, é essa:


Depois que ouvi Twentysomething há alguns anos nunca deixei o som do Jamie Cullum muito abaixo na playlist. Agora, com o álbum The Pursuit na praça, digo aquela frase mais lugar comum do mundo, mas real: a música dele só melhora com o tempo. E mais além,a mistura forte da tradição com sons novos é algo ímpar e, de fato, vai ficar marcado na música inglesa, no rock, no jazz, enfim, vai marcar.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

30 Days (Jazz) Songs Challenge - Dia 1

Dia 1 - The song with the highest play count on your iPod/mp3 player
            (A música com o maior número de execuções no seu iPod/mp3 player)

Imaginem minha surpresa quando abri o iTunes e achei um rock como meu som mais tocado! Não é qualquer música que tenha baixado por engano ou nada do tipo, mas simplesmente a mais bacana do quinteto LSD and the Search For God. Eu já escrevi sobre eles aqui no blog e, curiosamente, o vídeo embutido é o mesmo da música com maior ranking no meu pc.


Pra não ser injusto com aqueles que vieram ouvir um jazz, o segundo colocado é uma das canções mais pungentes do Frank Sinatra, na minha opinião. Ela se chama The Moon Is Yellow (And The Night Was Young). Frank gravou essa canção 3 vezes durante a sua carreira, mas a versão que tenho aqui é de um show gravado em Las Vegas em novembro de 1961, onde está acompanhado de uma orquestra completa e plenamente envolido pelos ritmos latinos que a melodia evoca. Como não consegui essa versão pra compartilhar, ofereço outra gravação ao vivo d'A Voz cantando no Japão, também nos anos 60, acompanhado de um quinteto.


Não curti muito essa versão, achei-a extremamente fraca perto da que tenho, mas é o que a internet oferece.

Backstages não são mais o que eram...

De acordo com o músico Aidan Moffat, as áreas de backstage se tornaram muito chatas. Sem fãs se acotovelando em prol da concentração pré-show ou outros artistas pra trocar uma idéia, ele fez um vídeo mostrando o quão chato pode ser esperar um show finalmente começar do ponto de vista do performer.
Aí vai.


Pacing - A Short-Film by Aidan Moffat from Sean Adams on Vimeo.



Se você curtiu essa pequena experiência dele com vídeo, clique aqui para ler uma entrevista (em inglês) com Moffat sobre as duas coisas mais importantes em sua vida: sua filosofia sobre barba e cabelo e sua música.

terça-feira, 5 de julho de 2011

30 Days (Jazz) Songs Challenge

Voltei. Demorei pra postar aqui novamente, mas voltei. Na verdade, daqui há exatos 10 dias um ano se fecharia sem um post novo no blog.

O por quê de tanta ausência? Eu poderia dizer que estou muitíssimo ocupado, sem tempo nem pra me divertir, com muitos estudos, compromissos e horas demais despediçadas num ônibus. Não, eu fiquei fora tanto tempo por não saber o que escrever de original para aqueles que lêem esta página.

Quando tive as primeiras idéias para o blog, desde seu nome, layout e etc, tive como mantra atualizá-lo diariamente com algo completamente novo. Logo descobri que isso é incrivelmente difícil: mesmo com muita dedicação diária, não é todo dia que fazemos algo novo e interessante e, no fim de alguns meses, estava exausto e a rotina me fez evitar tanto esforço.

No fim das contas, passei de opinador para simples observador, sem produzir nada de original. Agora chega, perdi tempo demais remoendo uma responsabilidade estranha que me fez esquecer que este espaço é voltado pra falar das vantagens do jazz, de suas belezas e também de suas deficiências.

Talvez eu não volte a postar diariamente, porém tive uma idéia pra escrever mais e trazer conteúdo a tona: resolvi fazer o 30 Days Songs Challenge. Bastante popular no Facebook, essa brincadeira te desafia a escolher uma música por dia que se encaixe na frase desse dia e postá-la no seu perfil para os seus amigos ouvirem (nesse caso, para os leitores do blog). Por exemplo: dia 1: a canção com maior número de reprodução no seu mp3 player ou o dia 5, que interroga postar uma que ninguém suspeitaria que você gostasse e por aí vai. No final, você meio que lembra que conhece mais som do que lembrava e espalhou boa música pela internet.

Bom, é isso. A partir de amanhã, entro nessa dieta sonora e vou tecendo comentários explicando minhas escolhas. Até mais!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Paulo Moura e Yamandu Costa - El Negro Del Blanco



É estranho e motivador um grande músico morrer. Estranho, claro, pela falta que sabemos que sentiremos do artista que tanto nos influenciou. Motivador por que toda sua produção será olhada com outros olhos, com diferentes sensações ao saber que aquilo é tudo: não haverá o novo, somente a cópia. Me sinto assim desde ontem à noite, quando soube que o clarinetista Paulo Moura havia morrido de linfoma horas antes. Não foi uma morte qualquer de um músico que não conhecia. Tudo graças ao álbum El Negro Del Blanco (Biscoito Fino, 2004), que Moura gravou ao lado do violonista Yamandu Costa, um dos instrumentistas mais significantes na minha formação musical.

Na epóca do seu lançamento, adquiri uma cópia assim que o vi na prateleira e nunca me arrependi. Adimito, o comprei pelo som do Yamandu, que tanto admiro. O fato de Moura estar lá era um detalhe. Ouvir faixa após faixa, sem pausas e sem interrupções é parte do processo de cada trabalho que encontro, porém este foi mais longe. Ao contemplar o som encorpado de Yamandu encontrei o contraponto harmônico de Moura, um bálsamo de beleza em cada passagem.

Toda a ideologia do disco vêm da fusão das vertentes latino-americanas do violão de Costa com a brasilidade presente na clarineta de Moura. Uma virtuosidade e várias melodias que existem lado a lado e pouco são exploradas juntas por não serem 'naturalmente compatíveis'. Ambos instrumentistas já haviam entendido essa possibilidade simplesmente por tocarem juntos em sarais Rio de Janeiro afora. A idéia de gravar tais arranjos informais veio da esposa de Paulo, Halina Grynberg, ao perceber tamanha afinidade no som deles. Com a escolha óbvia de temas que vão do cancioneiro cubano ao chorinho carioca, a mistura nos faz lembrar que Halina teve uma ótima sugestão.

Na faixa-título, composta pelos dois, as cadências não dão limite aos improvisos e pequenas modificações possíveis. Através de cada rapidez de escalas e voltas relaxantes ao começo a combinação de timbres encanta. Com surpresa e perfeita junção, o medley Um Chorinho em Aldeia/Na Glória mostra que a velocidade não é inimiga de boas melodias. (Ambas se tornaram conhecidas através das orquestras populares que tocavam nos bailes por volta da metade do século). Sem dúvida a agilidade dificulta a compreensão numa primeira audição, porém o maravilhamento que resulta dali é a surpresa de duas peças parecerem tão fundidas a ponto de não se largarem mais. O fôlego de Moura é bastante resistente, acredite.

As próximas três interprtações são de origem latina. Duerme Negrito tem a qualidade das canções de ninar em espanhol que suavizam o ambiente e acalmam os brutos, enquanto La Paloma compartilha a sensação de sonolência que milhões de trabalhadores procuram após o almoço. Inclusive, esta habanera foi composta no século XIX e é considerada a primeira habanera. Em seguida chega a veloz Valsa Venezuelana, a prova de que Yamandu realmente toca com virtuosismo e vigor únicos. Aqui Moura fica só no acompanhamento melódico, algo simples e dentro do compasso. Também é nessa estrutura que percebemos a força resultante entre o leve e o pesado. Enquanto o violão assume o controle, a clarineta vem só massagear e relembra que por trás de toda complexidade há o básico, o trecho primordial que formula tudo. Sem isso não há nada. Como dizia Charles Mingus: "Tornar o simples complicado é fácil. Transformar o difícil em simples, isso sim é criatividade."

Aí voltamos pro choro. Jacob do Bandolim transcendeu quando tornou o fraseado mais limpo e envolvente, o que Paulo refaz em Simplicidade com esta peça-chave no repertório de Jacob. Sem isso, os acordes amistosos do violão de 7 cordas, tão tradicional no chorinho, seriam solitários. A virtude de criar em cima dele são tão grandes que Yamandu vai, volta e completa as pinçadas que Moura dispara (com elegância) todo tempo. Sons de Carrilhões, talvez a composição mais característica do gênero, veio pronta neste álbum. Completa, redonda, encachada, o adjetivo que for: vejo a versão fiel da partitura mais dificil perto dessa, que moleza, que fluidez! Não poderia ser diferente vindo do sopro natural de Moura e a suavidade de Costa (quando ele quer assim).

Porque quando não quer, a pancada vêm forte. Decaríssimo marcha pros lados de Piazzolla, o compositor. Arranjo forte, bem planejado. Lhes digo, nessa o solo vêm de trem e não pára antes de 100km/h! Yamandu brinca de tentar 200 notas por minuto e (só contando uma por uma) acho que chega perto! Moura não é chegado a tantos virtuosismos, como é vísivel até essa altura da audição, porém extravaza com competência e dentro dos padrões, assim como em Carrilhões.

O último representante brasileiro é um medley de canções de Baden Powell, quase um avó do violão moderno no Brasil. Através de pequenos trechos de Samba Triste, Lapinha, Samba da Bênção e Pra Que Chorar, todas colaborações de Powell com Billy Blanco, Paulo César Pinheiro e Viníciius de Moraes (nas duas últimas) respectivamente, o samba predomina entre os mais felizes motivos à contemplação da tristeza sem dificuldades. Grande parte do arranjo é resoluto, compacto, mal se percebe passar de uma harmonia a outra, sem contar que as letras, naqueles que as conhecem, surgem fácil nos lábios.

Voltando aos latinos-americanos, De Camino a La Vereda, do veterano cubano Ibrahim Ferrer, é um frevo canhoto, daqueles que faz a cabeça dançar por dentro e por fora. Algo que não muda ao ouvirmos a contemplativa Gracias A La Vida, grande sucesso de Violeta Parra nos anos 70. Existe nesta pequena obra um calor diferente do apresentado no álbum inteiro. Um misto de tristeza e esperança perpassa as notas e lembra remotamente aquele clima que todo espetáculo da Mercedes Sosa possuia. Não importa quem a toque, a a sensação é a mesma. Elis Regina também atingiu um estágio de sublimação que me deixa arrepiado até a alma. Enfim, Moura/Costa vão evoluindo com entusiasmo exemplares, o que torna esta a minha peça favorita da dupla.

Pra fechar os trabalhos, o clássico de Mariano Mores fecha com toques dramáticos o acento gaúcho SEMPRE presente nas cordas de Yamandu. Taquito Militar é daquelas que todo músico que vive junto da cultura hermana sabe e executa em volta da fogueira. Assim como Asa Branca no nordeste e As Pastorinhas do Rio, Taquito representa uma união de pessoas que vivem perto, compartilham pensamentos e exalam emoções semelhantes, um som puro que os caracteriza. Aqui eles (Paulo e Costa) brincam com os andamentos e  acordes largos e rispidos, algo com desenvoltura passeando pela malandragem.

Imagem retirada do encarte do álbum (Yamandu a esquerda e Moura a direita)

Algo que notei com carinho entre todas as obras foi o final. Todas chegam calmamente, sem aquela pressa de não haver o que dizer. Passagens longas e espaçosas deixam o ouvido ressoando melhor o que já escutou. É com essa nostalgia que não me esqueço de Paulo Moura. Sempre que o ouço a atmosfera  permanece aberta em possibilidades de felicidade e agitação. Nada melhor do que ouví-lo também tocando sax alto e soprano com dedicação e firmeza que pessoas do porte de Cannonball Adderley o escolheram para gravar junto sob o mesmo instrumento. Yamandu Costa também não fica pra trás e surpreende por dar espação às liberdades do companheiro, uma atitude nobre de um recente gênio na presença de um grandioso mestre de suas capacidades.

Para os que curtiram o som, Moura gravou um disco de sonoridades bem parecidas com o também aclamado Raphael Rabello, chamado Dois Irmãos (1992). Nele há outra versão para Um Chorinho Em Aldeia. É interessante conferir as diferenças e semelhanças entre o toque dos violões e a harmonia que Moura tece em volta deles.

Logo abaixo você pode conferir uma entrevista dada pelo violonista sobre a concepção do álbum, a relação com Paulo Moura. e seus projetos futuros. Em seguida assista um trecho do programa Ensaio, gravado em 2004, que contêm La Paloma, Simplicidade e um pouco da voz de Moura.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

Kurt Rosenwinkel em Porto Alegre



Graças ao público gaúcho e a iniciativa de algumas produtoras em apostar no jazz fora do eixo Rio-São Paulo, um cativante nome do jazz acabou de se apresentar na cidade. O guitarrista Kurt Rosenwinkel subiu ao palco do Teatro CIEE pontualmente às 21h, o que é raro em espetáculos atuamente.
Acompanhado de Ted Poor na bateria e Eric Revis no contrabaixo acústico, o trio ataca com Sandu, um blues leve, algo bem tradicional. Logo depois vem Reflections, de Thelonious Monk, que chega com mais energia e uma melodia menos ‘convencional’, solos mais encorpados e espasmos corporais: resultado das leituras que o songbook de Monk desperta em seus intérpretes.  Invitation também não deixa o público no básico ‘trio-standard-de-jazz’ e se transforma no ápice do show. Diversos slides na guitarra, arpejos rápidos do baixista e muita força nos pratos de Poor acharam o caminho mais criativo para balançar a cabeça de várias pessoas sentadas literalmente, assim como eu.  
Não é surpresa quando um músico de respeito toca ao vivo e você está lá para escutar. Surpresa é esse respeito aumentar e se espalhar pela música já costumaz  dos fãs e não oferecer um canto pro improviso, mas a estrutura inteira. Após tamanho jato de energia que cada soco (do bem) na bateria era sentida na barriga e um acorde mais ousado era dedilhado com facilidade por cima da coxa, Darn That Dream, outro pedaço de tradição do jazz clássico, foi a realização mais fiel da noite. Como a proposta de trio superficialmente traz, a idéia aqui era de suprimir ao invés de acrescentar: notas demais em um arranjo antigo as vezes atrapalha.
Panelinha entre músicos de todo o mundo, mas principalmente os norte-americanos, Insensatez (ou How Insensitive) veio calma e serena, sem tentativas de virtuosismos e tomada por levadas meigas. Não é novo estrangeiros improvisarem sobre a bossa nova e mudarem o andamento, porém Rosenwinkel levou a composição mais pra Django Reinhardt do que pra Baden Powell. Não sei se fui feliz nessa comparação, mas penso que o ritmo de Kurt traz algo de Django bastante sutil, um toque mais fluído e menos pensado que o West Montgomery faria, por exemplo.
Ao anunciar a última música do concerto, Kurt veio com uma forte despedida. Cheryl, gravada por ele, não era o tour-de-france de Invitation nem a complexa Reflections: foi além na mistura de empolgação e escalas sofisticadas sem um movimento brusco de habilidade sequer. Aqui os três músicos novamente levaram o improviso além-mar e trouxeram a lembrança de que nem todos são rápidos ou com carreiras musicais brilahntes pela frente, mas podem entender e se entreter com o som que Rosenwinkel fez esta noite.
Claro, o bis também não ficou feio. Sem dizer o que estava interpretando (e acredito que foi uma grande inveção de momento, leia-se improviso), Poor abocanhou 5 minutos e fez melodias mágicas com a bateria, tornando acompanhá-lo um desafio aos seus companheiros. Revis fez diversas entradas e preparou melodias pra si que trouxeram um ar de seriedade pro show como um todo, sempre econômico e fluorescente. Algo que notei no jeito de Rosenwinkel tocar foram os 'finais infinitos’ que praticava. Ao fim de todas as músicas, os floreados e lugares comuns eram reajeitados assim que chegavam, os bordões não encontravam espaço jamais. Ele se esmerou (as vezes com força) para terminar com originalidade total, sem passados. Ficou bacana assistí-lo estudar as melhores terminações possíveis e não se entregar ao previsível.
Assim, uma hora e meia de show foram quinze minutos e três horas no mesmo espaço de tempo. Espero que as performances musicais na capital gaúcha cresçam e se multipliquem com a mesma qualidade que o de hoje. Preços acessíveis e lugares confortáveis é o básico e mesmo assim um luxo para o público e o artista. Que fique dita minha opinião, como jornalista e como espectador.
Assista abaixo o guitarrista interpretando 'Round Midnight (ao vivo na Polônia em 2009)