quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

The Jazz Loft Project

The Jazz Loft Project é a descoberta e divulgação de um dos maiores acervos informais (até agora) da história do jazz. O loft a que se refere o nome é o apartamento localizado no quarto andar da 821 Sixth Avenue, em Nova York. De 1957 a 1965, foi palco de ensaios, discussões e berço de intelectuais e artistas, prinpalmente músicos de jazz.



Por iniciativa de Sam Stephenson, escritor e instrutor da Center for Documentary Studies, da Duke University, o gigantesco material (mais de mil rolos de áudiotape) foi ouvido e digitalizado, resultado: 5,079 CDs. Entre uma gravação e outra, é possível ouvir desde ensaios inteiros de Thelonious Monk trabalhando com sua big band antes do histórico Town Hall Concert até conversas de telefone entre W. Eugene Smith e seus amigos.

Eugene, o idealizador de tais gravações, era fotógrafo e se mudou para Nova york em 1957 após viver e trabalhar por quatro anos em Pittsburgh. O objetivo principal na época era gravar seus gatos, que todos diziam ser muitos. Logo, ao dividir o lugar com um pintor, amigos começaram a visitá-lo e, entre eles, havia um baterista. Sem demora seu flat tornou-se ponto de encontro de gênios (Salvador Dalí e Norman Mailer passaram por lá) e os jazzistas o assumiram como segunda casa criativa (a primeira é o palco). É confirmado que se divertiram e tocaram caras como Chick Corea, Paul Bley, Zoot Simms e Roland Kirk, entre tantos outros. Um total de 3 mil horas de som ambiente entre músicas e banalidades está preservado dentro do prório apartamento. Fotógrafo de mão cheia, também tirou mais de 40 mil fotos destas jam sessions.

Para divulgar tamanho conteúdo, Stephenson lançou o livro The Jazz Loft Project: Photographs and Tapes of W. Eugene Smith from 821 Sixth Avenue, 1957-1965 em novembro de 2009. Através de descrições, detalhes e curiosidades dos 8 anos de vida musical do local, Stephenson produziu mais um documento da efervescência jazzística dos anos 50 e 60 em Nova York com fotos, transcrições diretas e momentos off stage de várias personalidades. Para acessar o site oficial do projeto e ler o prefário do livro, clique aqui.

Paralelo ao livro, a rádio WNYC lançou, em 16 de Novembro, uma série divida em 10 episódios sobre o impacto cultural que o local despertou no gênero. Você pode escutar todos os capítulos, inclusive os ainda não veiculados, pelo página do The Jazz Loft Project na WNYC.

Para assistir o vídeo com Sam Stephenson dentro do antológico loft e seu acervo, acesse o link abaixo:
http://www.amazon.com/gp/mpd/permalink/m2F7FQURY74F2L

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O jazz na novela das oito ou por que assistir Viver A Vida

Quando digo que o jazz está em todos os lugares, pode até soar como piada, mas não é. Uma prova concreta disso é a trilha sonora da novela das oito que passa às nove, Viver A Vida. Do lado nacional, o melhor da música brasileira tradicional (Tom Jobim, Cássia Eller) e contemporânea como Ana Cañas, Maria Gadu e Roberta Sá se revelam e aí mora uma surpresa incrível interpretada por um intérprete inusitado (veja quem é mais abaixo). Porém é no internacional que o jazz aparece com força: Jamie Cullum, Diana Krall e Melody Gardot destilam o licor supremo dos standards em novas roupagens, sem falar na linda remixagem de My Funny Valentine por Living Theater.

JAMIE CULLUM - SINGIN' IN THE RAIN

São raras as pessoas que não consigam se lembrar da clássica cena de Gene Kelly dançando e cantando embaixo da chuva, mais feliz impossível. O cantor e pianista inglês Jamie Cullum, ao lançar o álbum Twentysomething em 2004, incluiu a música de mesmo nome do filme ao repertório. Despojado de qualquer fronteira musical e sem receio de incitar novos ares em antigas letras, Cullum amaciou os versos e diminui o ritmo a ponto de transformar a canção numa balada com fortes toques de Frank Sinatra. Através de violinos, percurssão e um teclado bastante lânguido, a atmosfera alegre e eufórica de Kelly sai de cena e deixa um clima de nu-jazz limpo e relaxante. O scat simples, uma mera sonorização da melodia, contribui com leveza, mesmo que não lembre a versão original. Durante os shows ao vivo, Cullum recorre ao scat do filme e improvisa com espontaneidade, a sua maior característica junto aos chutes e socos ao piano. Na novela, não identifiquei a identificação musical com nenhum personagem em particular: a canção é bastante usada nas tomadas áreas, onde o Rio de Janeiro mostra suas belezas entre um núcleo e outro. A escolha deu resultado.



DIANA KRALL - TOO MARVELOUS FOR WORDS

Uma das, senão a mais segura cantora de jazz dos últimos 20 anos, Diana Krall mais uma vez bebe na fonte da bossa nova com Too Marvelous For Words. Com música de Richard A. Whiting e letra de Johnny Mercer, esta composição é gravada há mais de 50 anos por intérpretes da música norte-americana e se tornou um stardard, ou seja, uma canção que integra o grande songbook não declarado de uma cultura, assim como Águas de Março é figura marcada em retrosectivas de música brasileira. A combinação entre bossa nova e smooth jazz é tênue, mas a principal característica é aquele violão tímido guiando todo o resto, nesse caso em igualdade com o piano de Krall. Isso mostra que o conjunto clássico pode se sobressair diante das mixagens e fusões excêntricas (alias, ótimas) da atualidade. A letra e a melodia principais intactas e no tempo certo, talvez um pouco mais lento pra bossa, dão força ao tom rotineiro de Krall sem perder o sabor. Retirado de seu mais recente álbum Quiet Nights, onde todo repertório segue a mesma linha, a demanda pelo jazz tradicional cresce, mas não é o suficiente para a evolução do gênero. O mesmo problema de Cullum também aparece aqui, sem identificação musical específica.

Diana Krall - Too Marvelous For Words by user74603


MELODY GARDOT - OVER THE RAINBOW

Este sim, o cânone dos primórdios do cinema que virou jazz, merece todos os aplausos. Sensação nos últimos anos, a cantora Melody Gardot transforma tudo e reinventa o trabalho de Harold Arlen presente em O Mágico de Oz em música nova. A voz consistente e a modificação de tempo, arranjo e melodia enlevam o ouvinte a um estado natural de perfeitas cores e diferentes aromas. Apesar de todos os elementos serem familiares, os acordes se apressam e modulam sem laços enquanto os versos mudam felizes e tristes sem qualquer previsibilidade. Parte integrante de Baby I'm A Fool, segundo trabalho da Gardot, o desafio de oferecer uma nova face ao saturado número de versões existentes foi extremamente bem sucedido. Em Viver A Vida, a música é pano de fundo para a personagem de Natália do Vale, dona de um estúdio de fotografia especializado em clientes maduras, na casa dos 40 anos pra cima. Ao perceberem que ainda são sensuais e desejam mostrar-se por inteiro, o ato de revelar sua intimidade muitas vezes precisa de calma e preparação, oferecidas pela dona. A mensagem que ambos, vídeo e som, passam é de que o tradicional, o consagrado, também pode ser belo e repaginado até a perfeição, sem medos e preconceitos de parecer 'careta'. A ironia entre a situação das clientes e da idéia semeada na trilha sonora casaram com sofisticação, mais uma prova do impacto das inovações.

Melody Gardot - My One And Only Thrill - 11 - Over The Rainbow by user74603


LIVING THEATER feat. P. MELA - MY FUNNY VALENTINE

Após tamanha satisfação com Over The Rainbow, o tema dos personagens interpretados por Giovana Antonelli e José Mayer é equilibrado em seu conteúdo e sentido. Dora (Antonelli) é amante-de-uma-noite de Marcos (Zé Mayer) quando este vai para Parati. Em seus encontros ou lembranças sobre os momentos passados juntos, o remix de Rodgers & Hart pelas mãos de P. Mela (não pergunte, não pergunte...) é ambientação mais cool de todas, eu diria. Quando realmente parei para escutar a canção e seu contexto, não pude deixar de sorrir com a
experimentação. A letra de Lorenz Hart resume o afeto de uma 'namorada divertida' e suas impressões no namorado. Tanto homens quanto mulheres trabalharam esta canção durante décadas, mas a versão considerada mais fiel, a mais sublime de todas é a de Chet Baker. Gravada em 1953 no LP "Chet Baker Sings", ela é basicamente voz, piano e contrabaixo (ouça AQUI).

As sutilezas e descrições de um amor ao ser amado são quase banais ao mencionar boca, cabelos e sorriso, porém a interpretação dela traz à mente os sentimentos mais nobres e também simples do ser humano, daí sua força emotiva. Ao intercalar tais nuances com batidas eletrônicas e contrapontos de trumpete, a ternura continua lá e comove pela levada, quase uma canção de ninar, uma lullaby. Ao ver Dora e Marcos se beijando no mar ao embalo pontuadíssimo da melodia de Rodgers, é inevitável aliar tais detalhes ao coração e intimidade dos personagens em cena. É outra brincadeira (ou não) da produção da novela combinar um caso extraconjugal com emoções sinceras que supostamente não poderião haver na infidelidade. Além de tudo, a edição é redonda, sem momentos de pouca interação ou falta de clímax. Esta 'roupagem' está no Viver A Vida - Lounge, uma compilação de títulos aquém do padrão Globo de trilha sonora: músicas lounge mesmo, pra dançar, curtir ou refletir durante a noite.

Living Theater feat. P. Melas - My Funny Valentine by user74603


CAETANO VELOSO - THE MAN I LOVE

Finalmente a surpresa brasileira! Sendo a única música cantada em inglês dentro das escolhas em português, Caetano inovou, sim, mas também estranhou um bocado. Composta em 1932 pelas irmãos Gershwin, os versos falam especificamente da esperança da mulher ao amor que virá, o homem que ela amará, em tradução literal. Também no núcleo de Zé Mayer, seu papel é 'abençoar' a relação de Marcos e Helena, sua esposa, interpretada por Taís Araújo. Nada melhor que uma canção romântica e positiva pra caracterizar uma paixão ardente! Através de outra pérola de edição, cada que vez que toca a cena toma um ar de delicadeza, de sublimação do sentimento em comum. Até aí tudo bem, o que incomoda em primeiro plano é a voz masculina de Veloso oralizando a letra. Por motivos óbvios, nenhum cantor gravou esta composição. A Foreign Sound, álbum do artista baiano totalmente dedicado à músicas estrangeiras em inglês, traz Nirvana, Bob Dylan, Cole Porter e outras obras dos Gershwins, inclusive Summertime, mas de longe nenhuma delas foi um choque tão revolucionário quanto The Man I Love. Possuidor de uma voz que consegue vibrar perto do registro feminino, a impressão que fica é a do lado-mulher de Veloso interpretando e não o macho, deliberadamente. Não recrimino, penso que é válido como obra de arte uma interação no mínimo inusitada.


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Melody Gardot - http://twitter.com/mgardot
Jamie Cullum - http://twitter.com/jamiecullum
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Obs: Caetano Veloso, Living Theater e P. Mela não tem perfis oficiais.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Namoro, Cole Porter e Sinatra no cinema

Quem não conhece Frank Sinatra que atire a primeira pedra, quem nunca viu um de seus filmes jogue a segunda e a terceira... Sim, Sinatra também foi ator e participou em mais de 40 filmes de diversos gêneros, desde comédia à policial. Como respeitado cantor, não é de se surpreender que tenha cantado em muitas dessas produções, as vezes o único ponto firme da trama. Este é o caso de Can Can, de Walter Lang.

Apesar de ser um ótimo cantor, as qualidades inerentes ao teatro não lhe foram dadas. O próprio dizia que o sucesso de suas músicas vinha do talento em poder interpretar canções e passar o que o compositor queria transmitir. No cinema é quase igual...

Produzido em 1960, a história se passa em 1896, em Montmartre, quando o can-can é proibido pelo 'bem da moral e da boa conduta' da época. No dia em que a polícia dá uma batida numa boate e descobre a dança ilegal, Simone (Shirley McLaine), dona e dançarina, vai presa e deixa o juiz Philippe Forrestier (Louis Jordan) apaixonado. Ao mesmo tempo, Forrestier tenta fazer seu trabalho, proibir o can-can, sem magoar a dançarina. O namorado de Simone, François (Frank Sinatra) terá que ser esperto para continuar com Simone e despitar o coração do juiz.



Sinatra charmoso....

Pois é, deu vontade de ver? Nem em mim.... O atrativo é a criatividade musical aliada à interpretações divertidas e, percebe-se, feitas pra entreter a platéia e não necessariamente fazer sentido. Cole Porter, compositor de standarts eternos no jazz e MPNA (música popular norte-americana, acabei de inventar) cedeu os direitos de uso de suas canções ao filme e assim tudo tomou seu lugar. Além de Sinatra cantando C'est Magnifique, há Louis Jordan em You Do Something To Me e Maurice Chevalier tentando engrenar Just One of Those Things. Lembrete: outro filme estrelado por Sinatra, High Society (com Bing Crosby, Louis Armstrong e Grace Kelly) teve que desembolsar 250 mil dólares pelos direitos de nove melodias de Porter.



... Sinatra bobão.

O melhor está por vir. Dentre todas as performances do longa-metragem Can-Can, a mais simples, terna e romântica é do"Skinny" Sinatra. Logo após uma briga com Simone, Frank, ops François desce pra tomar um drink e encontra uma das coristas que sempre paquerou, mas nunca foi adiante. Mesmo em frente a oportunidade de ganhá-la, ele pensa, volta atrás e lhe explica tudo com It's Alright With Me. Sem ofendê-la, ele gentilmente a dispensa e se mostra um homem fiel a Simone. "Oh, what a man!", diriam suas milhares de fãs.

O grand finale da cena nasce do que aconteceu nos bastidores. A atriz que interpreta a corista se chama Juliet Prowse, namorada de Sinatra no começo dos anos 60. Não é de se surpreender o nepotismo e/ou favoritismo do showbiz de sempre, mas a mistura entre a vida real, namorados, e cinematográfica, "amigos coloridos" é saborosa. Prowse, que já era dançarina antes de conhecer o astro-namorado, só ganhou com a visibilidade do relacionamento: participações em filmes, peças de teatros, perfis em revistas, etc. Infelizmente o romance não foi longe. Após pedí-la em noivado em 1962, Sinatra queria muitooo (entenda por impôr) que ela largasse a carreira artística em nome do casamento, o que ela não aceitou e decidiu por terminar.



Nota publicada na época do noivado

É, uma mulher lhe dar o fora durante o noivado não foi nada legal, mas ele superou rápido, aposto, com outras coristas Hollywood afora... Voltou a casar em 1965 com a também atriz Mia Farrow e logo depois com Barbara Marx, ex-esposa de um dos irmãos Marx, em 1976. Juliet Prowse tocou em frente: atuou com Elvis Presley (um dos inimigos comercias de Frank) em G. I. Blues e o seriado norte-americano Mona McCluskey, além dos filmes The Fiercest Heart (1961) e Who Killed Teddy Bear? (1965). Após tudo isto, sua estrela abaixou e ficou anos se apresentando como dançarina em cassinos de Las Vegas. Se casou com o ator de TV John McCook, do qual se separou e voltou um pouco antes de morrer de câncer em setembro de 1996.

Em seguida você assiste a cena de Can-Can que inspirou este post, dentro e fora das telas.
Apesar de toda polêmica off-stage, a canção é cantada com extrema beleza por Sinatra e lhe dá toda paixão que um caso de amor demora a apagar: a fidelidade dos sentimentos.


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Miles Davis - A Tribute to Jack Johnson


Antes de qualquer observação, algo é preciso ser dito: Miles Davis. Melhor que um selo de qualidade (e o é), esse nome ilustra o jazz em diversos níveis que levaríamos um bom tempo para explicar e não teríamos a imagem tão clara senão com... Miles Davis. Quando gravou A Tribute to Jack Johnson, em fevereiro e abril de 1970, a influência do rock já era sentida no mercado de jazz. Miles já tinha pego essas influências há alguns anos, mas ao ser chamado pra compor a trilha sonora do documentário de William Clayton sobre o peso pesado Jack Johnson era inevitável aliar o boxe ao crescente material fusion. Ele também começou a praticar o esporte, que pode ser muito prejudicial a um trompetista: um soco na boca pode condenar o trumpete a semanas de solidão até o lábio cicatrizar.

Uma prática tão dinâmica quanto violenta pedia uma mudança também inesperada nas músicas por encomenda e nada melhor que o rock'n'roll para embelezar jebs e cruzados de direita. Após o mind-blowing Bitches Brew e o profundo In A Silent Way, a estrutura de Right Off e Yesternow lembra os intervalos entre guarda levantada e ataques certeiros. Além do documentário pro qual foi escrito, os acordes também combinam com outras cenas de boxe clássicos, como Rocky, Touro Indomável e Cinderella Man. Experimente a fusão do boxe com o fusion e verá.

Miles Davis foi muito criticado ao apostar pesado no jazz+rock. Foi chamado de traidor da causa, vira-casaca e até de roqueiro, uma ofensa nada legal entre os puristas do jazz. Com o começo dos anos 60, o jazz enfrentou duas décadas de vacas magras até se recuperar novamente nos anos 80. Os músicos de sucesso conseguiram viver de shows ao redor do mundo, como foi o caso de Dexter Gordon, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, mas o fluxo de novidades no gênero foi escasso. O grande fator foi o fenômeno que o rock e o folk provocaram: Rolling Stones, Bob Dylan e outros ícones surgiram nessa época e tiram o jazz do main stream musical. Muitos haviam pensado que o ritmo morrera e não conseguiria sobreviver senão de nostalgia dos anos dourados.

Porém, Miles Davis não se abalou: desmontou o que foi considera
do seu primeiro quinteto clássico (Jimmy Cobb na baterial, Bill Evans e Wynton Kelly no piano, Paul Chambers no baixo, Cannonball Adderley no sax alto e John Coltrane no sax tenor) para formar o segundo, composto de talentos consagrados, como Ron Carter no baixo, e novatos tipo Herbie Hancock no piano, Wayne Shorter no sax tenor e o prodígio Tony Williams, de 17 anos, na bateria. Essa formação foi utilizada numa excursão na Europa em meados de 1963. Um pouco antes disso também contou com Hank Mobley no sax tenor e Sonny Stitt no alto, mas o pacote ficou melhor somente com um trumpete e um sax. O grupo foi um grande êxito no delicado circuito jazzístico daquele tempo. Ao fim dos anos 60 e já sentindo que perdia adeptos, Miles resolveu mudar.



Será que dá pro primeiro round?


Como já dito,
Bitches Brew foi a pedra fundamental na radicalização de si e sua música. Largou os ternos, mudou a capa de seus álbuns e contratou uma legião afinada com equipamentos elétricos: desde Chick Corea e Joe Zawinul nos teclados ao brasileiro Airto Moreira nas percussões engrossaram os discos que antes não contavam com mais do que 5, 6 pessoas no estúdio. Logo depois veio In A Silent Way, cheio de melodias introspectivas conversando com sintetizadores e guitarras, outro exemplo da linha tênue entre rock e jazz que Miles queria, quase um cool batizado com soul.

Toda essa evolução musical, esse conceito que abrange elementos de Jimi Hendrix e James Brown ao inovador jazz pré-70 foi decisivo na hora de aceitar o convite
e compor para o filme de William Clayton. Seria difícil passar movimento pra tomadas de Johnson com My Funny Valentine ou Freddie Freeloader ao fundo. Mesmo
Bitches ou Silent não mostram o choque do drum'n'bass que Tribute to... constrói. Em Right Off, o andamento é mutante e acompanha o andar que cada solo sugere, o que traz à mente um entrosamento dinâmico entre batera, baixo e órgão. Com Hancock, único remanecente do quinteto pós-Kind Of Blue, o órgão se mistura com a simplicidade típica de Herbie e o sax soprano alterado de Steve Grossman sem confusões, um pergunta, o outro responde direto. John McLaughlin não se reserva apenas o direito de background e traz a história do rock em toda nota distorcida, dissonante ou límpida que inventa. Aqui um começo de luta é sugerida a cada instante, sem pensamentos, só pancada, só investida, sem tempo pra defesa.

A seção rítimica (a cozinha, como muitos chamam, mas ainda não me acostumei ao termo) conta com Billy Cobham e Jack DeJohnette na bateria, sem falar em Dave Holland e Michael Henderson nos baixos elétricos. Os quatro não gravaram simultaneamente as duas faixas: se o tivessem feito, o som seria imbatível.


Jack Johnson


A história das composições é tão improvisada quanto ao resultado: McLaughlin estava treinando alguns riifs no estúdio, quando Michael Henderson e Billy Cobham se juntaram a ele. Hancock, que estava no prédio realizando outra sessão, foi convidado pelo produtor Teo Macero e somou-se logo antes de Miles Chegar. Dizem que há trechos de Sing a Single Song, de Sly and the Family Stone, em Right Off, sem contar que a linha básica do baixo elétrico em Yesternow é uma variação de Say It Loud - I'm Black and I'm Proud, de James Brown. É complicado atestar se houve plágio, adaptação ou simples inspiração nestas músicas, mas que o conjunto deu o caldo perfeito, isso deu.

Yesternow começa como um segundo round, com os músicos-lutadores já aquecidos e sem partir pro ataque: já sabem como o adversário (não perco a metáfora nunca!) age e vão se aproximando
de canto até o golpe certo. No meio de tudo isso, lá pelos 12 minutos, o clima muda e quase vejo uma luta de boxe em slowmotion a minha frente: o momento do derrotado chega, ele sabe que vai perder, se agarra a uma esperança que nunca chegará. Daí vêm o prazer do vencedor, a guitarra de McLaughlin ensaia uma linha de euforia junto com Miles: com segurança ele desafia a si mesmo a encontrar a brecha mais dolorosa do oponente e encontra. Mesmo assim, vencer depende de acabar com o outro, de lhe trazer humilhação em troca de glória, a confusão mental finalmente vem a tona e pede uma medida drástica: bater e ganhar. Do clímax vêm a reflexão: não sei de quem, mas a verdade aparece: o dor e o prazer vivem em paz.

Logo nos últimos quinze segundos, a famosa frase do pugilista Jack Johnson é dita pelo ator Brock Peters como um trófeu pra os que vencem e aos que sucubem, mas com diginidade:
"I'm Jack Johnson -- heavyweight champion of the world! I'm black! They never let me forget it. I'm black all right; I'll never let them forget it." Eu digo: "And why would we do that?"

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Melody Gardot: Jazz, clips e banheiras

Há décadas que as bandas, principalmente as de rock e pop, produzem videos curtos para ilustrar suas músicas: os hiper populares clips. Pois bem, todos já viram algum dos Rolling Stones, da Madonna e do Michael Jackson, mas quantos de jazz existem por aí?

Como o jazz surgiu antes dessa prática e sofreu muito com o crescimento frenético do rock, reggae e pop tomando os jovens ouvidos pra longe, a idéia de um gigante como Miles Davis gravando solos num praia seria surreal, mas acho que ele teria topado... Quem sabe o Coltrane dentro duma igreja ou Louis Armstrong num onibus... opa isso aconteceu! Enfim, o máximo que o jazz usufruiu disto está presente nos filmes, vários deles, onde caras como o senhor Armstrong improvisa com Paul Newman e Sidney Poitier (Paris Blues, 1961).

Geralmente convidados como adidos nestes filmes, a interação entre jazz e cinema deu certo, tanto que o pianista Duke Ellington foi convidado a compor a trilha sonora de Anatomy of a Murder (1959).

Apesar de não ser um espaço garatido pra arte musical, pelos menos o peso da imagem já contribui na divulgação e curiosidade que despertam no público. É raro vermos clips do gênero sendo veiculados na mídia atual, mas alguém se manisfestou: Melody Gardot. A promissora cantora norte americana de vinte e poucos anos fez um clip belíssimo pra música Baby I'm A Fool, que está em seu último álbum My One and Only Thrill. Após ser lançado na Internet no site oficial da artista, Nelson Motta comentou o fenônemo Gardot em sua coluna semanal no Jornal da Globo. Ele mostrou cenas e teceu elogias à cantora e sua iniciativa, o que é muito válido para um ritmo que mal tem espaço na mídia de massa.

A seguir assista Baby I'm A Fool, com Melody Gardot na voz, corpo e numa banheira muito...hmmm.. confortável:


video


Como se fosse pouco, Gardot também lançou um pequeno clip (não no sentido clássico do termo) de outra música de My One and Only Thrill. A canção se chama Who Will Confort Me e mistura momentos de estúdio com vídeos out-of-stage de Melody. Confira:

video

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Jazz Station - Oscar Peterson

Após meses de trabalho exaustivo e pesquisa, finalmente o Jazz Station saiu das fitas cassetes e veio para a Internet. Ninguém melhor e mais criativo do que Oscar Peterson, provavelmente o pianista com maior número de gravações (mais de 200) e um dos recordistas em tempo de carreira (67 anos, precisamente) a ser o artista representado.

Nascido em 15 de Agosto de 1925, Oscar Emmanuel Peterson teve seu primeiro contato com a música através do trompete, aos 5 anos, mas, devido a tuberculose, trocou o sopro pelo teclado. Sua dedicação ao piano clássico, ensinado pelo pai e pela irmã mais velha, logo se converteu ao jazz: era só uma questão de tempo para largar o colégio e começar a tocar na noite.

A extensa carreira (graças a Deus!) de Peterson foi fruto de técnica e uma imaginação efervescente: sua velocidade assustadora podia impressionar pela quantidade de som que produzia, mas nunca deixava de ser suave e terno em suas apresentações, sempre cheio de simplicidade ao piano e em relação com o público.

Diferente de pianistas como Herbie Hancock e Red Garland, Peterson reinventava suas músicas e tirava o máximo de proveito de seus improvisos, objeto de estudo e admiração de milhares de músicos, amadores ou não. Quando se apresentava ao vivo ou simplesmente fosse gravar em estúdio, sabia que a música que estivesse prestes a tocar jamais seria igual; não importava se fosse nova ou velha, cada nota soaria diferente e original. A qualidade única que emanava de todo improviso que fazia nos lembra dos trechos que o autor ignorou ao compor e o pianista se esforçava para recolocar no lugar como se fosse seu. De fato era, mas o segredo é transparecer a humildade em melhorar algo sem tirar o crédito de ninguém. Oscar Peterson podia e queria fazer assim.



Para baixar o podcast, clique na foto abaixo:



Músicas:
It's Alright With Me
Joy Spring
The Shadow of Your Smile
Sweet Georgia Brown
Take the A Train
The Lady Is a Tramp
Nica's Dream
Mirage

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

NOVO! Estréia do Podcast Jazz Station

Caros amantes do jazz, é com imenso prazer que anuncio os novos Podcasts Jazz Station no Porão do Jazz! Após passar o ano de 2008 como apresentador/produtor do programa de mesmo nome na RadioFam (clique AQUI para saber mais), a criação do blog se tornou o espaço ideal pra divulgar os episódios que todas as sextas-feiras à noite iam ao ar pela frequência digital da Famecos (PUCRS). Após o longo trabalho de digitalizar, editar, limpar e remasterizar o áudio para melhor atender os padrões da Internet, lhes apresento o primeiro resultado: a rica vida e obra de Duke Ellington.

Nascido em 1899, Duke revolucionou a era de ouro das big bands através duma orquestra que levava multidões ao delírio sem decepcionar os críticos mais puristas da época. Caracterizado no início como um provedor de swing perfeito para dança, Ellington também explorou as raízes da música clássica aliada ao jazz e ao gospel. Suas composições foram um marco e um manual da criatividade que floresceu a partir dos anos 20 nos trabalhos de Count Basie, Fletcher Henderson e Benny Goodman. Porém sua trajetória musical tanto como compositor quanto performer é grandiosa demais para se limitar a resumos, portanto baixe e aproveite a próxima hora ouvindo o melhor sobre o mestre Duke Ellington.

Pra baixar o episódio, clique na imagem abaixo.

Grande abraço e até a próxima!

domingo, 7 de junho de 2009

Nat King Cole RE: GENERATIONS

Há alguns meses que venho me aproximando com cuidado e ressalvas nas fusões de jazz com reggae, rock e música eletrônica. Apesar de admirar a criatividade de quem produz tal som e gostar do resultado, ainda piso em ovos no campo do nu-jazz, trip hop e acid jazz. Porém uma simples olhada na vitrine duma livraria-video-revistaria-café, vi um CD que prometia coisa boa logo no design gráfico: era o Nat King Cole RE:GENERATIONS. Vocês não imaginam a música que ele contêm.

Dentro da idéia de remixar alguns clásicos do cantor Nat King Cole (1919-1965), vários produtores foram convidados a trabalhar em cima de fonogramas, alguns com mais 60 anos(Nature Boy, gravação de 1948), e adicionar elementos eletrônicos às consagradas linhas melódicas de Nat. Ao que percebi, as únicas exigências eram manter o vocal e reaproveitar alguns elementos da canção original. Tirando isso, as melodias e harmonias foram reinventadas e acrescidas até o limite, o que trouxe um sabor especial às produções.



Nathaniel Adams Coles...

O início do álbum nos traz um diamante relapidado. O produtor musical e músico Cee-Lo pegou Lush Life, um dos maiores clássicos do jazz perfeitos na voz de Cole, e trouxe o frescor do drum'n'bass sem se sobrepor à parte sinfônica da versão original. Por ser uma canção tão milimétrica e musicalmente 'redonda', Cee-Lo se concentrou em pegar somente algumas versos e desenvolver uma melodia eletrônica com a ajuda da orquestra onde só estes trechos seriam suficientes para dar continuidade a tudo. É genial como apenas dez versos comandam 80% da música.

Logo após temos uma fusão comum: pai e filha cantando juntos, mesmo que ambos não tenham tido carreiras na mesma época. A tecnologia evoluiu a ponto de poder captar a voz do pai, gravada há décadas e unir com o fraseado delicado da filha, ainda viva e atuante. A filha neste caso é a cantora Natalie Cole e o mixer é o integrante da banda Black Eyes Peas Will.i.am. O trabalho aqui foi mexer o mínimo possível na gravação do pai e apenas trazer a voz de Natalie alida à batidas pop, o que não a deixou pobre ou confusa para o ouvinte. É o passado musical da família fundido com novas cores musicais.

Conversas de estúdio geralmente são cortadas na mixagem, mas tem um siginificado diferente se bem colocadas. É assim que Day in, day out começa, com o técnico anunciando o take naquele tom de rádio e fala repe-pe-tida, um prelúdio do jovial brincando com o antigo. Logo em seguida que sua fala termina, uma bateria forte e incorpada começa a martelar junto de um teclado elétrico e pequenos barulhinhos estrategicamente posicionados. E o melhor: no começo e no final, quando Nat diz "a thousand drums" com aquele tom de assombro, tudo pára e um gordo solo de bateria digital começa e termina, assim, no meio de tudo e dando chance àqueles ótimos esquemas pergunta-reposta, frequentes no jazz. A brincadeira com a nota final de Cole esticada e retorcida especialmente para criar um fraseado musical cai simples e pontual, e Deus sabe que não é fácil fazer aquilo.

Apesar da maioria das faixas serem ouro puro, algumas decepções não resistem a aparecer. Um exemplo está em Walkin' my baby back home, remixada por The roots, onde o próprio encarregado de mexer somente na estrutura e melodia da canção também se achou no direito de colar um trecho de hip hop que não condiz com o resto da música. O último minuto e meio é de fato outra música, a voz de Cole serve apenas como backing vocal pra algum outro rimar. Algo parecido acontece também em The game of love (acrescido de Nas e Salaam Remi): só um trechinho pra se autopromover, nada demias.... Em Hit that jive, Jack (transformada por Souldiggaz e Izza kizza), somente o refrão foi mantido, enquanto o resto da letra foi substituída por outra, bem mais cheia de malícia, sem falar nas vocalizações femininas que acabam por sublimar o escasso registro original.

Outro pecado musical também foi cometido em Calypso blues (avacalhado por Stephen e Damian Marley, descendentes de Bob Marley) : se você acha que faltou alguma coisa, por quê não incluí-la, mesmo que a canção não seja sua? Pois é, não sei qual dos dois teve a ideía de inserir um refrão numa composição que o conceito principal é não havê-lo. A versão original propõe isso: a repetição forte da melodia através de letras não declaradas, um refrão sem palavras porém cheio de notas.

Capa de Nat King Cole RE: GENERATIONS

A brasileira Bebel Gilberto, filha do cantor João Gilberto, aparece e mixou a música Brazilian love song em parceia de Michaelangelo L'Acqua. Ela também mexeu onde não devia, mas foi mais sutil do que os outros. Entre alguns versos ela canta a versão abrasileirada-portuguesada do refrão, ou seja, aquilo que Tom Jobim fez para o Frank Sinatra cantar a bossa-nova nos anos 60: manteve a melodia, mas mudou a letra no contexto. Bebel fez o mesmo e tomou a mudança e a intromissão dentro do ritmo, colocando dois versos que não existem, mas que combinaram com a história contada na letra.

Dentre todos os remixes, More and more of your amour foi a mais fiel à sua própria natureza. Embelezada por Bitter:Sweet, as mudanças de andamento foram respeitadas a ponto de cada um obter uma personalidade sua e facilmente distinguível. El choclo segue junto este caminho, lembrando a onda do tango eletrônico: afinal, acordeóns e picapes combinam muito bem. Ela traz vocalizações, perguntas-repostas e lamentações bem visíveis, porém mais altas ou frias entre si, um artifício mágico pontuado pelo sofisticado espanhol de Nat. Ok, ok um refrão também foi introduzido de forma que entre no pequeno ciclo, aí pode.

O quê, um telefonema numa música?! É, Pick-up é um convite pra sacanagem com direito a cantada de homem e esculacho de mulher. De longe a combinação de Just Blaze foi a mais inteligente ao transformar uma letra pra voz única numa convincente conversa a dois. Assim, uma letra completamente masculina acaba por virar um conto de final engraçado e original. escutem e verão.... hehehehe....

Já chegando no final do álbum temos o remix de Anytime anyday anywhere, puxado pra balada clássica de pop e pouco contato humano. O produto da voz de Nat, límpida como água, traz a atmosfera perfeita de romance atada a tais camadas musicais pesadas e envolventes. Por mais insolúvel que a mistura pareça, o contraste entre estilos feito por Amp fiddler é difícil de assimilar na primeira vez, mas parece encontra lugar entre as faixas mais inovadoras e bem sucedidas do disco.


... ou Nat King Cole

Depois de tantas fusões doces, ácidas e indistringentes, Nature Boy realmente deixa o ouvido perturbado. De longe uma das músicas mais conhecidas de Nat (somente compete com Mona Lisa), a própria letra já sugere um clima místico, transcedental. A comunhão de graves e distorções quase irritantes na nova montagem de Tv on the radio leva a expectativa ao patamar de nirvana momentâneo, coisa de mantra mesmo que os músicos vão até a Índia aprender. O registro de Nat foi ampliado sabiamente pra dar esta sensação de epifania, mas não segue o desfecho da letra pra que o sentido da música seja revelado: é dada a todo momento e é isto que traz emoção em torno dos pequenos e gigantescos efeitos.

Como havia dito no começo, o projeto gráfico do CD é primoroso, a começar pela capa: a colagem de uma foto antiga e fundo espacial, algo que atiça a curiosidade pelas cores, as letras estilizadas e especialmente pela combinãção inusitada de elementos: Nat King Cole cantando no meio do espaço sideral? Ele está em outro mundo, em outra galáxia? Musicalmente falando, sim, e está em ótima companhia.

Outra peça promocional produzida pela gravadora Concord Records foi o mural pintado na sede da empresa em Hollywood pelo artista Man One. A seguir assita o vídeo sobre a produção do mural:
http://www.youtube.com/watch?v=-9OSAWM3SUQ

Aqui uma vídeo-montagem com material promocional do álbum e trecho de Lush Life:

domingo, 26 de abril de 2009

Terence Blanchard - A Tale of God's Will: A Requiem For Katrina

A inspiração é algo tão subjetivo que qualquer coisa no momento e no estado de espírito certos consegue aflorar uma idéia bacana, seja pra música, literatura ou humor. Geralmente as ‘fontes’ mais produtivas no universo musical são a mulher amada, a mulher inatingível, a alegria de estar com os amigos e até a simples arte de ter acordado inspirado. Porém este é o lado atraente de se compor. Há também as músicas reflexivas, aquelas que você compõe apenas no estado de espírito mais questionador possível, quando algo de muito bom ou muito ruim aconteceu sem sequer ter noção de como ou por quê.

Acho que foi com este pensamento que Terence Blanchard e seu quinteto começaram a escrever as primeiras notas presentes no álbum A Tale of God’s Will: A Requiem For Katrina (Blue Note). Para quem não se lembra, a cidade de New Orleans foi devastada por um furacão de categoria 4 da escala Saffir-Simpson, a principal em medição de furacões (assim como terremoto é medido em escala Richter), em agosto de 2005. A destruição causada por este fenômeno foi gigantesca e a cidade sofre os efeitos disso até hoje, quatro anos depois. O nome Katrina foi dado para batizar esta terrível catástrofe que deixou mais de mil mortos e duzentas mil casas abaixo d’água. Outros estados também foram atingidos, como Flórida, Mississipi e Alabama, mas a cidade mais ferida dentre todas foi justamente a capital do jazz, o berço de mestres como Louis Armstrong.

Terence Blanchard

Por ter chego tão rápido e feito tantos estragos, a imprensa mundial cobriu extensamente a situação e lhe digo: estava bem pior do que qualquer coisa que se possa filmar ou entrevistar. Milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas e morar em ginásios lotados, dividir tudo que conseguiram salvar e ter a dúvida cruel de não saber se seus parentes desaparecidos estariam perdidos, talvez mortos.

O trompetista Terence Blanchard, nascido e criado em New Orleans, primeiramente foi convidado pelo diretor Spike Lee para compor a trilha sonora do documentário When The Leeves Broke; A Requiem in Four Acts, um registro de quatro horas de duração sobre o caos que se instalou na cidade após o desastre natural. O resultado deste trabalho foi tão gratificante para Blanchard que o músico resolveu gravar um álbum com base nas músicas que compôs originalmente para a película. E assim o fez.

Segundo Blanchard, porém, não seria justo que somente sua visão musical sobre a tragédia fosse exposta, tendo em vista que outros integrantes de seu quinteto também são de lá. Sendo assim, abrir espaço para as composições deles foi a maneira mais sensata de transmitir as várias perspectivas da situação.

Entre as colaborações estão Mantra, criação do baterista Kendrick Scott como um “mantra pra curar e renovar”. O pianista Aaron Parks contribuiu com Ashe e o contrabaixista Derrick Hodge trouxe Over There, composta antes do furacão, mas que coube perfeitamente no tema. Por fim, temos In Time of Need pelas mãos do sax tenor Brice Winston, imaginada após se mudar de New Orleans para Tucson, no Texas.



Ghost of Congo Square é uma homenagem à rua de mesmo nome em que, nos tempos da escravidão, os rebeldes eram enforcados por sua desobediência. Após o fim do regime escravo este local se tornou ponto de encontro musical entre os descendentes africanos e sua música, sendo assim até hoje. Levees, no entanto, já apresenta um tom melancólico muito bem arquitetado pela Northwest Orchestra, e que tem como missão expressar “uma velha e cansada folha lutando contra a água para não ser levada de seu galho”. Através de Ghost of Betsy e The Water, Blanchard relembra os tempos de garoto quando o furacão Betsy inundou seu bairro em 1965. Além disso, introduziu a melodia de Funeral Dirge como uma “digna lembrança pela pilha de corpos mortos naquele dia”.

Após ouvir o álbum na sequência certa é fácil perceber quase capítulos por trás de cada tema. Pense bem: comecemos com Congo Square, um registro de dias difíceis em um lugar que atualmente é motivo de orgulho. Aí vêm Leeves, um manifesto em nome da resistência e Wading Through, outra peça única na tentativa da auto-superação. Ashé e In Time of Need buscam a força que todos precisamos para sermos racionais nos piores momentos de crise, seguidos pelas memórias de tempos parecidos (Ghost of Betsy e The Water) e os motivos para nos mantermos calmos diante de toda adversidade (Mantra Intro, Mantra, Over There). Daqui pra frente é a hora de contar os estragos e de fato sentir as feridas, exemplo presentes em Ghost of 1927 e Funeral Dirge, sendo um dos poucos alicerces nossa Dear Mom.

Como trilha sonora do filme, as idéias do grupo contribuíram no estado emocional criado na cidade, a esperança de reconstruir tudo e o medo de não fazer nada, a calamidade que a falta de um casaco ou sequer uma cama podem brotar no ser humano mais otimista, agora um pouco mais amargo. Está é a minha filosofia do que é suportar uma tragédia, algo violento, completamente devastador e muito revelador.
Além disso, é o exemplo mais concreto da inspiração que a música extrai da realidade, aquilo que é impossível fingir ou sintetizar sem o impacto emocional e financeiro que bate com força e nos move como peças por nossa consicência. Sair deste estado de letargia ou indignação através da expressão individual gerlamente produz verdadeiras obras, porém essas reflexões precisam de uma ligação coma realidade que os cerca e não apenas ser um lamento: as pessoas que entrarem em contanto com estas expressões devem se influenciar, se juntar a idéia de sofrimento passado e conquistado, bastante presente neste álbum.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Chick Corea & Hiromi - Duet


Enquanto viajava pelos blogs e sites de jazz mundo afora ouvindo as sublimes gravações do Art Tatum pro selo Pablo nos anos 50, encontrei uma menção à Chick Corea. Admito: nunca dei muita bola pra ele, escutei alguns álbuns e foi isso, não me trouxe grandes inspirações, mas quando este nome veio acompanhado da japonesa Hiromi Uehara, a discípula oriental de Oscar Peterson e protegé de Ahmad Jamal, aí disse: “Desculpe Art, mas algo incrível está pra acontecer!”

Dentre todos os instrumentos em que o jazz se utilizar pra continuar vivo, o piano é o meu favorito. Todo pianista que cai em minhas mãos logo é escutado e admirado, de Monk à Glasper, de Tyner a Evans, com algumas ressalvas, é claro.






Pausei o som da velha guarda na emoção da chegada do novo aos meus ouvidos curiosos através de Duet: Chick & Hiromi (Concord Records) Não estranhei a parceria, pois já tinha visto ambos tocando juntos nos anos 90, quando Hiromi ainda era uma adolescente. Fiquei bastante surpreso com a escolha do repertório e do tamanho do trabalho final: um álbum duplo! Entrou na reta desde canções-mãe da bossa nova, como How Insensitive (Insensatez, de Tom Jobim) até melodias japonesas para ninar, a Do Mo (Children’s Song #12): impossível sequer bocejar. Há também composições da própria Hiromi, autora de Old Castle, by the River, in the Middle of a Forest e a presença refinada de Bill Evans logo na abertura com Very Early.

A surpresa e o encanto causados pela música foi único. Bolivar Blues, composta por Thelonious Monk, é levada naquele ritmo quase gago e comedido que Monk desenvolveu, porém sem parecer ingênuo. Fool On The Hill possui um tom quase de acompanhamento: parece ter saído da trilha sonora de um bom filme de comédia, seguida daquelas sequências com o personagem principal e várias situações embaraçosas. Execuções mais sérias em Place to Be e Deja Vu deram o ar de compromisso com a rotina pesada que pessoas competentes exprimem em notas sem parecer fria e resplandece emoção. Já Summertime foi o corpo estranho e interessante que sintetiza toda a idéia musical da gravação, aquele clássico que já foi transformado o máximo que podia, mas sempre é tentado a mudar novamente e obter um bom resultado. You did it again, folks!




A energia que o som extremamente limpo destes dois pianos desenvolve é resultado de uma globalização musical. Uma sugestão de misturar as influências do piano oriental com as teclas ocidentais (iguais no mundo todo, só pra esclarecer) poderia ser bem exótica se fosse feito há cinqüenta anos, porém hoje é tão natural ‘músicos mundiais’ se reunirem pra repartir as mesmas ligações que, se ensaiarem demais, o produto final é redundante, sem o exotismo esperado. O caso de Hiromi e Corea foge disso justamente pela cultura do jazz norte-americano influenciar o som dos outros cantos que tem interesse no estilo: Hiromi idolatra o virtuosismo do Art Tatum, justamente por buscar uma agilidade melódica que o Tatum era exímio.

A relação dessas mãos japonesas e norte-americanas é um contraponto exclusivo por condensar as cadências de um e não sombrear o timbre do outro. Um tema que já tocaram juntos bastante e que se repete no álbum é o Concierto de Aranjuez, mais conhecido por Spain, a mais emblemática do seu repertório mútuo. Aliás, ser uma peça clássica tocada por pianistas de jazz distintos faz com que cada improviso seja tocado com seu significado duplicado: a nota improvisada é uma homenagem ao clube, o compasso ensaiado ao salão de concerto. O minuto final onde a platéia segue o ritmo com palmas é o ápice de reconhecimento e identificação que tal encontro mundial-idiomático-musical proporciona, algo pra se presentear e festejar.


O álbum duplo foi gravado ano passado no Blue Note Club, em Tokyo, ao decorrer de três dias regados a piano e saque, espero. Ele saiu com duas capas diferentes, como você pôde ver antes, provavelmente uma para o mercado norte-americano e a outra na Europa e Ásia.